A força da música amazônica
Bem no meio de uma imensa floresta brota o fruto. Maturado, cria consistência. Vem o tempo e se recosta em sua casca. Vem o pássaro e o cerca com seu ninho. Vem a luz e tinge-o de cor intensa. Vem o orvalho e umedece-lhe a pele que o sol da manhã trata de secar e fazer brilhar.
Amazônica Elegância (independente, com apoio da Funarte) é o CD que reúne Enrico Di Miceli e Joãozinho Gomes, compositores belenenses (PA) dotados de estreita ligação com a cultura musical de Macapá (AP). Brotado em meio ao mistério impenetrável da Amazônia, ele é o sumo nascido do ventre do feitiço que percorre a austeridade da mata fechada.
Embora não sejam cantores, e sim compositores, os dois se revezam em solos e duos para interpretar doze de suas músicas – com exceção de uma, que tem como parceiro Cléverson Baia (“Mandala a Mandela”), e das que têm participação vocal de Celso Viáfora (“A Beleza da Arte Que Emana”), Nilson Chaves (“Punhal de Ferro”) e Grupo Voz (“Medonho Amor”).
O norte do Brasil é palco de grandes manifestações da cultura popular trazidas pelos negros africanos: o marabaixo, o batuque, o carimbó rural, o hip hop, dentre outros. Dessa miscigenação vem a energia da poesia de Joãozinho Gomes; nessa mistura reside a força da música criada por Enrico Di Miceli.
Com arranjos de Adelbert Carneiro (exceto o da pungente canção “Medonho Amor”, que tem arranjos vocal e instrumental concebidos pelo ótimo Grupo Voz), o clima do CD é, quase sempre, palpitante, quente.
A percussão pulsa sob as palavras. A melodia embala para presente harmonias que têm de tudo o que de melhor já se concebeu. Os versos revelam um mundo vestido pela atmosfera da floresta.
“Cantor, Compositor e Poeta” – “(...) Louvado seja o poeta/ E que a sua arte verse a alma do compositor/ E essa vá repleta de notas e de letras/ Pra se tornar completa na arte do cantor” – é uma ode à fundição de talentos que se completam para apregoar belezas. “Amazônica Elegância”, “Mandala a Mandela” – “(...) E lembrar os quadris de Dandara/ Dois barcos em plena procela/ Girassóis coroando a senzala/ Compassos traçando outra era” – e “4 de Fevereiro” são contagiantes e pulsam ao som de djembes e curimbós. “Punhal de Ferro” é um pranto sentido. “Eu e a Solidão”, comovente.
Nascido para viver o destino reservado àqueles que crescem em meio a uma densa floresta, o compositor presumiu ser eterno. Preparou-se, então, com o afinco e a tenacidade dos que têm certeza de que para se sobressair há que se expor perante a humanidade; enfeitiçar os que descreem; contaminar com sangue novo o dom inusual, concedido apenas a poucos.
Porque sentem a ventania levando o oxigênio pulmões adentro, Joãozinho e Enrico criam embriagados pela força do ambiente da floresta obra de arte. Abençoam suas aptidões as águas do rio mar que refletem o brilho das escamas dos peixes. Encantados, cantam uma Amazônia que é nossa, embora poucos brasileiros dela não saibam nem sequer um terço.



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