A prainha do Xuá
Aqui, quando faz frio é de rachar a mamona. Mas quando faz calor, é de cozinhar os miolos. De clichê em clichê vamos levando a vida.
Tenho visto tanta gente reclamando do calor, que às vezes entro no coro destes descontentes e ponho-me a maldizer os deuses da meteorologia.
Memória curta, temos nós, eternos insatisfeitos.
Se faz frio, é porque faz frio.
Se neva, é porque neva.
Se chove, é porque chove.
Se faz calor, é porque faz calor.
Criei-me em Governador Valadares, que julgava ser o lugar mais quente do mundo. Um Saara sem beduínos, sem camelos e nem tempestade de areia.
No meu coração, Valadares será para sempre um oásis, de brisas benfazejas, belas odaliscas, e xeiques de riquezas invisíveis.
Como era bonita, e quente, a minha Gevê. Tão quente, que um jornalista de passagem pela cidade escreveu um texto de onde chamou “sucursal do inferno”.
Em Valadares vi um sujeito fritar um ovo no capô de um fusca.
Vi o Rio Doce emagrecer, todo ano, sua cintura afinando e produzindo dezenas de praias ao longo de seu curso. A mais famosa delas era a praia do Xuá, numa ilhota próxima à ponte São Raimundo. Era para lá que íamos.
Foi naquela ilhota que, menino ainda, vi um índio.
Aliás, um bugre, que é como os adultos a ele se referiam.
No meu desconhecimento de geografia, imaginava que um bugre era alguém vindo de um país distante, talvez na Cordilheira dos Andes, talvez na fronteira da Indonésia.
Bugrelândia?
Bugrária?
Seria um bugre, o mesmo que um búlgaro?
Criança, ainda, pensei ter desvendado o mistério: o homem seria de Campinas, terra do Guarani, clube de futebol que tem um bugrezinho como mascote.
E ele ficava acocorado na porta de um palheiro, debulhando milho e bebendo cachaça, que os brancos davam para ele.
Aquele índio era uma espécie de guardião da ilha, onde plantava algumas coisas e criava galinhas. Não tinha mulher nem filhos. Não tinha família.
Não tinha nada, aquele pobre homem de cabelos lisos e desgrenhados.
Quando o calor aumentava a ponto de quase explodir os termômetros, o rio ia definhando e formando suas prainhas, o Xuá era o destino de muitos de nós.
Tinha muito de paraíso naquelas areias brancas.
Do fundo de nossas precariedades, aqueles prazeres temporões saciavam uma sede muito maior que a nossa sede de mar e de amor. De quebra, ainda nos oferecia uma oportunidade única de socialização.
Farofa geral, sim, meus senhores.
Abaixo o calor! Viva a praia!
Garrafa de pinga, meio engradado de cerveja em encardidas caixas de isopor, refrigerantes, frango assado e farofa.
Muita farofa.
Homens jogavam carteado, mulheres tricoteavam sobre a vida alheia, enquanto as crianças jogavam futebol com uma bola de plástico da marca Pelé.
Muitas vezes nos afastávamos dos adultos e saíamos explorando as margens, roubando manga, jambo, jenipapo e ingá dos quintais ribeirinhos. Não raro, éramos expulsos a tiros de sal.
Alguns de nós aproveitavam a oportunidade e lançavam a sorte nas pescarias.
Tinha muito piau, lambari, tucunaré, curimatã, bagre e corvina.
Nadávamos, mergulhávamos, pescávamos e passeávamos de pedra em pedra como se não existisse o amanhã.
E, para alguns, não existia mesmo.
Muita gente perdeu a vida se refrescando nas águas traiçoeiras daquele rio.
E se as mortes ocasionais serviam como alerta para os perigos das águas, elas não eram amedrontadoras o suficiente para nos afastar de lá.
O medo de morrer afogado terminava antes da missa do sétimo dia.
Tenho saudade das prainhas do Rio Doce. Tanta saudade que, hoje, vendo o sol e o calor nos transformar nessas insuportáveis bola de mau humor, carne e suor, daria qualquer coisa para aportar numa prainha como aquela do Xuá.
Ficaria quietinho, sobre uma pedra lodosa, sentindo as águas do tempo passeando tranqüilas sobre meu corpo, levando meus cansaços, meus pecados, minhas culpas.



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Parabéns por esta importante conquista para o jornalismo brasileiro.
Obrigado por sua dedicação, parabéns e obrigado Roberto.
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Escreva-me em meu email (o Ramúcio tem). Estou pensando em enviar uma letra. Você está em Sampa?
Abraço grande do
Roberto.
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