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Roberto Lima

Das lembranças simples e boas

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Algum dos leitores combinou, em priscas eras, “Capadinho à Meia”, com algum amiguinho ou amiguinha na escola?

Tudo bem. Não vou forçar a barra.

Só quem é do interior e já “trintou“ nesta vida, irá saber do que estou falando.

Capadinho à Meia visava copiar, à moda dos meninos, o tratado que os adultos tinham de criar porcos à meia.

Na versão adulta, funcionava assim:

A porca do senhor José paria seus leitões e esses leitões eram levados para a casa do senhor João.

Este, por sua vez, “capava” os suínos para que tivessem uma engorda mais rápida. Cabia a ele criá-los.

Era sua total responsabilidade alimentá-los, curá-los de suas doenças até que alcançassem o  peso ideal. Uma vez “no ponto”, os animais eram vendidos ou abatidos.

No primeiro caso, cada um levava a metade do dinheiro obtido. No segundo caso, cada sócio ficava com uma banda do bicho.

Entre as crianças, o contrato referia-se ao lanche do recreio na escola.

O “compadre” que escutasse o seu par dizer “Capadinho à Meia”, deveria, imediatamente e sem reclamar, repartir ao meio, a merenda.

Como há sempre um jeitinho de driblar as regras, poderia-se livrar da partilha dizendo “Capadinha a meia aí, e licença”, ao ver o compadre se

aproximar.   Esquisito, né?

Nem tanto. Estranho mesmo era, no início da juventude, a carteirinha de sapo, uma cartolina impressa em tipografia, contendo os seguintes dados:

“O portador deste documento tem direito de roubar fruta no pé, dar palpite em jogo de sinuca, omitir durante a confissão, filar cigarro dos amigos e xingar  juiz em partida de futebol”.

E os apelidos do interior?

Impagáveis, todos eles. Melhor mesmo, só alguns nomes.

O humorista  Chico Anysio, por exemplo, jura que o meio campo do seu time de coração, o Ferroviário do Ceará, era composto por Redondo, Peru e Cacetão.

No Ibituruna de São Raimundo tínhamos Fubica, Piriá, Pilão, Caieira e o treinador Pé-Chato, todos apelidos.

Tinha também Atanagiba, Aristeu e Docival, do jeitinho que atestavam suas respectivas certidões de nascimento.

Nos botequins do bairro, duplas engraçadas como Almir Boca-Rosa e Walmir Tanguinha, parceiros de sinuca.

No salão de dança tinha Jandira Tanajura e Maria Cobrinha, especialistas em forró.

Registre-se na lista os amedrontadores  Pedrinho Capeta, Cláudio Saci e Antônio “Lubizôme’.

Não posso me esquecer dos “insetos” Formigão e Muriçoca.

Nem dos “pacíficos” Marcos Pombinha e Antenor Calça-Frouxa.

Tinha também  os pouco atraentes Edson Curiango e Reginaldo Caburé.

Na zona boêmia,  Rita Cafubira e Adelaide Copo-Sujo.

A namorada de meu amigo Paulo Canjiquinha atendia pela alcunha de Beth Arrebenta-Beiço.

Tudo porque abrira a golpes de cotovelo, a boca de um bêbado que tentou agarrá-la na saída de um baile no clube San Remo.

Meu padrinho se chamava Deobaldino. Sua esposa era Sidonília.

Entre tanta espirituosidade, nenhum caso é tão pitoresco como o dos inapartáveis José e Sebastião.

José de Arimatéia Santos era negro, tão reluzente, que caiu nas graças do povo como Zé Cromado.

Seu grande amigo Sebastião Soares Pollozi, era o único albino dos sete irmãos.

Na infância era chamado de ‘Vermêio’ e Cabelo-de-Fogo. Na juventude, ganhou o definitivo Tião ‘Fuliado’.

Eles queriam dizer “folheado a ouro”.

É bom deixar claro que Zé Cromado e Tião ‘Fuliado’, eram “atrelados”

desde meninos, mas tinham lá suas diferenças.

Um era atleticano, o outro cruzeirense.

Um era MDB, o outro ARENA.

Um era seresteiro.

O outro só falava em samba.

Ambos trabalhavam na cerâmica e eram compadres no batismo de seus filhos.

Cromado e Fuliado devem andar por lá até hoje.

Trocando farpas durante o carteado ou pescando no rio, discordando no futebol e na política, mas inseparáveis como dois siameses gerados fora da genética, através desta maravilha não-científica chamada amizade.

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