Das lembranças simples e boas
Algum dos leitores combinou, em priscas eras, “Capadinho à Meia”, com algum amiguinho ou amiguinha na escola?
Tudo bem. Não vou forçar a barra.
Só quem é do interior e já “trintou“ nesta vida, irá saber do que estou falando.
Capadinho à Meia visava copiar, à moda dos meninos, o tratado que os adultos tinham de criar porcos à meia.
Na versão adulta, funcionava assim:
A porca do senhor José paria seus leitões e esses leitões eram levados para a casa do senhor João.
Este, por sua vez, “capava” os suínos para que tivessem uma engorda mais rápida. Cabia a ele criá-los.
Era sua total responsabilidade alimentá-los, curá-los de suas doenças até que alcançassem o peso ideal. Uma vez “no ponto”, os animais eram vendidos ou abatidos.
No primeiro caso, cada um levava a metade do dinheiro obtido. No segundo caso, cada sócio ficava com uma banda do bicho.
Entre as crianças, o contrato referia-se ao lanche do recreio na escola.
O “compadre” que escutasse o seu par dizer “Capadinho à Meia”, deveria, imediatamente e sem reclamar, repartir ao meio, a merenda.
Como há sempre um jeitinho de driblar as regras, poderia-se livrar da partilha dizendo “Capadinha a meia aí, e licença”, ao ver o compadre se
aproximar. Esquisito, né?
Nem tanto. Estranho mesmo era, no início da juventude, a carteirinha de sapo, uma cartolina impressa em tipografia, contendo os seguintes dados:
“O portador deste documento tem direito de roubar fruta no pé, dar palpite em jogo de sinuca, omitir durante a confissão, filar cigarro dos amigos e xingar juiz em partida de futebol”.
E os apelidos do interior?
Impagáveis, todos eles. Melhor mesmo, só alguns nomes.
O humorista Chico Anysio, por exemplo, jura que o meio campo do seu time de coração, o Ferroviário do Ceará, era composto por Redondo, Peru e Cacetão.
No Ibituruna de São Raimundo tínhamos Fubica, Piriá, Pilão, Caieira e o treinador Pé-Chato, todos apelidos.
Tinha também Atanagiba, Aristeu e Docival, do jeitinho que atestavam suas respectivas certidões de nascimento.
Nos botequins do bairro, duplas engraçadas como Almir Boca-Rosa e Walmir Tanguinha, parceiros de sinuca.
No salão de dança tinha Jandira Tanajura e Maria Cobrinha, especialistas em forró.
Registre-se na lista os amedrontadores Pedrinho Capeta, Cláudio Saci e Antônio “Lubizôme’.
Não posso me esquecer dos “insetos” Formigão e Muriçoca.
Nem dos “pacíficos” Marcos Pombinha e Antenor Calça-Frouxa.
Tinha também os pouco atraentes Edson Curiango e Reginaldo Caburé.
Na zona boêmia, Rita Cafubira e Adelaide Copo-Sujo.
A namorada de meu amigo Paulo Canjiquinha atendia pela alcunha de Beth Arrebenta-Beiço.
Tudo porque abrira a golpes de cotovelo, a boca de um bêbado que tentou agarrá-la na saída de um baile no clube San Remo.
Meu padrinho se chamava Deobaldino. Sua esposa era Sidonília.
Entre tanta espirituosidade, nenhum caso é tão pitoresco como o dos inapartáveis José e Sebastião.
José de Arimatéia Santos era negro, tão reluzente, que caiu nas graças do povo como Zé Cromado.
Seu grande amigo Sebastião Soares Pollozi, era o único albino dos sete irmãos.
Na infância era chamado de ‘Vermêio’ e Cabelo-de-Fogo. Na juventude, ganhou o definitivo Tião ‘Fuliado’.
Eles queriam dizer “folheado a ouro”.
É bom deixar claro que Zé Cromado e Tião ‘Fuliado’, eram “atrelados”
desde meninos, mas tinham lá suas diferenças.
Um era atleticano, o outro cruzeirense.
Um era MDB, o outro ARENA.
Um era seresteiro.
O outro só falava em samba.
Ambos trabalhavam na cerâmica e eram compadres no batismo de seus filhos.
Cromado e Fuliado devem andar por lá até hoje.
Trocando farpas durante o carteado ou pescando no rio, discordando no futebol e na política, mas inseparáveis como dois siameses gerados fora da genética, através desta maravilha não-científica chamada amizade.



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