O perigo de subir na ponte

As majestosas pontes que ligam a Ilha de Manhattan aos outros bairros que formam à Grande Nova York, são fotografadas todos os dias por um número incontável de turistas. Esses verdadeiros gigantes de aço e ferro batido têm, inclusive, despertado o fascínio de inúmeros diretores de cinema que as imortalizaram através de seus filmes, por exemplo, as imagens da Ponte do Brooklyn chegam aos quatro cantos do mundo, através dos belíssimos cartões postais. O que poucos sabem, é que ofuscada por tanto glamour, existe uma indústria que cada dia que passa clama a vida de mais trabalhadores. Pouco antes do nascer do sol, imigrantes em todos os Estados Unidos iniciam uma rotina que muitos operários norte-americanos sequer se atrevem a encarar: a pintura e conservação de pontes e viadutos. Com salários que oscilam entre 45 e 59 dólares à hora, estrangeiros de todas as nacionalidades se arriscam nessa atividade que já tirou inúmeras vidas.

A turma de Reserva

Apesar do perigo constante, a oportunidade de juntar dinheiro rápido e, assim, retornar ao Brasil mais cedo tem atraído cada vez mais brasileiros, grande parte natural do Paraná, particularmente da cidade de Reserva, região rural do estado. Acredita-se que a preferência dos paranaenses pela profissão tenha surgido com os primeiros imigrantes que aderiram à função e enviaram grandes quantias de dinheiro à Reserva. A novidade espalhou-se na região, ganhou força e a pintura de pontes tornou-se o verdadeiro Eldorado para muitos. Mas a oportunidade de fazer dinheiro rápido tem cobrado a saúde e até a própria vida de muitos daqueles que tentaram “fazer a América” mais rapidamente.

O inimigo invisível


Expostos diariamente à grande concentração de chumbo, encontrado principalmente nas tintas fabricadas até o ano de 1970, os operários convivem com o risco constante de intoxicação. Após absorvido, o chumbo não é distribuído de forma homogênea no organismo. No sangue, o metal circulante armazena-se nos tecidos moles (maiores concentrações no fígado e rins) e nos minerais (ossos e dentes). O esqueleto é o principal compartimento onde se armazena o metal, cerca de 90% do chumbo encontrado no organismo está depositado nos ossos. O chumbo absorvido e armazenado tem uma meia-vida de pelo menos 25 anos nos ossos. Já no sangue, a meia-vida do chumbo é de aproximadamente 36 dias. Por isso, medidas de concentração do metal são importantes nos diagnósticos de intoxicações agudas, para o controle de indivíduos expostos no trabalho. A meia-vida do metal em tecidos moles é de aproximadamente 40 dias. Em pequenas quantidades o chumbo pode ser também eliminado pelo suor, saliva, unhas e cabelo. Através do sangue, o chumbo pode ser rapidamente transferido da mãe para o feto.

Sinais fatais

Os principais efeitos dos compostos de chumbo no sistema nervoso por exposição crônica são as encefalopatias com irritabilidade, cefaléia, tremor muscular, alucinações, perda da memória e da capacidade de concentração. Esses sintomas podem progredir até o delírio, convulsões, paralisias e coma. Dados experimentais revelam que danos causados pelo chumbo podem afetar funções da memória e do aprendizado em todos os ciclos da vida.

Vivo por um milagre

Além do risco de envenenamento por chumbo, diariamente, os trabalhadores desafiam as grandes alturas e lidam com a potente pistola de jato de areia (usada para tirar a camada de tinta antiga do metal), capaz de dilacerar um braço ou perna em questão de segundos. Durante quase duas décadas, o Brazilian Voice Newspaper vem retratando casos de imigrantes brasileiros que perderam a vida ou feriram-se gravemente nesta atividade. Em maio de 2003, o paranaense Luiz Fabiano Gunha, natural da cidade de Reserva – PR, quase ficou tetraplégico ao cair de um viaduto em New York. Gunha pintava um elevado na Stillwell Ave., no Brooklyn, quando a carroceria de um caminhão que trafegava pelo viaduto abaixo agarrou-se à lona que estava amarrada ao andaime. O cinto de segurança utilizado por Gunha estava solto, então, o balanço provocado pelo caminhão sacudiu a estrutura e ele caiu, em queda livre, de uma altura de trinta pés, chocando-se no asfalto abaixo.

O brasileiro foi levado imediatamente ao Lutheran Medical Center, no Brooklyn, onde ficou em coma por seis dias. Luiz Fabiano fraturou sete vértebras e o braço esquerdo, os médicos surpreenderam se pelo fato de que, milagrosamente, ele não tenha morrido ou ficado tetraplégico. Segundo o próprio operário, ele escapou da morte porque nenhum fragmento dos ossos das vértebras atingiu a medula e ele recebeu os primeiros socorros seu próprio irmão, pouco antes da chegada dos médicos. Se nenhuma ação rápida fosse tomada teria Luiz Fabiano se asfixiado no próprio sangue.

Luiz Fabiano processou as empresas Transit Authority e GBE Contractors Corporation por negligência baseado nas Leis de Segurança no Trabalho que obriga todos os trabalhadores usarem um cinto de segurança atado a um cabo e disponham de uma rede de proteção, cobrindo o local a ser trabalhado. No local em que Luiz estava trabalhando, nas duas seções do meio, não havia sido instalado nenhum cabo de segurança ou rede de proteção.

Atualmente, recuperado, casado, pai de um menino e vivendo no Brasil, Gunha admitiu na época que o salário de até 48 dólares à hora atrai inúmeros estrangeiros e que haviam muitos brasileiros trabalhando nas pontes. Dois anos antes de seu acidente, ele havia perdido um amigo que caiu de uma altura de duzentos e trinta pés no estado de Connecticut. Feliz por estar vivo, Luiz disse ter aprendido uma lição: independente do dinheiro, a vida não tem preço.

Salvo por um milagre

O pintor de pontes Reginaldo Tonelli, 33 anos, natural de Baurú, interior de São Paulo, residente em Newark – NJ, quase morreu ao cair da altura de 30 pés no interior de um tanque de óleo vazio e ficar desacordado por mais de 2 horas. O acidente ocorreu na manhã do dia 24 de setembro do ano passado na cidade de Albany, capital do estado de New York, e quase deixou Reginaldo paralítico dos membros inferiores. Salvo por um milagre, ele depende atualmente de uma cadeira de rodas e muletas para se locomover.

“Começamos a trabalhar às sete da manhã, quando deu nove horas parei para o “break” (lanche) e voltei a trabalhar nove e vinte. Somente me lembro de ter subido, trinta pés de altura, coloquei os equipamentos de segurança e comecei a trabalhar, a partir dai não me lembro de mais nada e fui acordar sete horas da noite no hospital”, disse Reginaldo.

Tonelli somente foi encontrado porque seu chefe reparou que a válvula que regulava o funcionamento de sua pistola de areia não estava funcionando por mais de uma hora. A equipe de resgate teve que passar por um pequeno túnel, sem visibilidade alguma, para chegar ao interior do tanque e retirar Reginaldo.

Como resultado da queda, ele fraturou quatro vértebras e o osso dos quadris em vários lugares, o que poderia comprometer indefinidamente sua locomoção. Ele ficou internado 22 dias no Albany Medical Center, de 24 de setembro a 15 de outubro, em New York. Segundo ele, os médicos disseram-lhe que possui boas chances de voltar a caminhar gradativamente, mas somente após muita fisioterapia.

Apesar do alto salário, cerca de US$ 48 à hora, ele se diz desiludido com a profissão de pintor de pontes e espera exercer outra atividade assim que recuperar-se do acidente que quase tirou-lhe a vida. Enquanto isso, Tonelli dedica-se às sessões de fisioterapia e luta judicialmente por seus direitos, sendo representado pela firma de advogados Koehler & Isaacs, com escritório em Manhattan – NY.

A vida não tem preço

“Um minuto de bobeira pode te custar muito caro, de repente, a sua vida vai embora, entendeu? Há muitas pessoas que não posuem essa noção do perigo, é muito perigoso, pintar pontes para mim nunca mais”, frisou Reginaldo.

Related posts

Comentários

Send this to a friend