Morte de ilegal em centro de detenção em New Jersey gera controvérsias

Companheiros de cela alegam que Ahmad Tanveer demorou a receber atendimento médico

Quando um imigrante ilegal de 43 anos morreu em um centro de detenção em New Jersey em 2005, o fato parece ter caído em um verdadeiro buraco negro. Embora um colega de cela tenha escrito uma nota denunciando a ativistas defensores dos imigrantes de que os sintomas comuns a um ataque do coração apresentados pelo detento não haviam sido atendidos há longo tempo , as autoridades sequer confirmaram que tal indivíduo morto existisse.

Em março, mais de 5 anos após a morte, agentes federais de imigração reconheceram que o incidente passou desapercebido e acrescentaram um nome: “Ahmad Tanveer” à sua lista de fatalidades durante custódia. Mesmo que a morte do detento tenha saído da obscuridão, sua vida continua um mistério. O The New York Times publicou em abril um artigo que destacou o sigilo e a falta de responsabilidade no já inflado sistema carcerário de imigração. Na ocasião, quem era esse indivíduo e porque ele havia sido detido era desconhecido.

Mesmo após uma longa trajetória de pesquisas em documentos oficiais e entrevistas com amigos e parentes em New York, Texas e Paquistão, o nome “Ahmad T.” ainda estava escrito na portaria do Eldorado, um apartamento em Flatbush, Brooklyn (NJ), onde ele viveu por vários anos. A lista de inquilinos, com nomes como Jones, Nadler, Mahmud, Fong, Quinones, identificam a longa história da imigração americana que Ahmad tentou fazer parte.

Tanveer Ahmad foi durante muitos anos um motorista de taxi que pagou milhares de dólares em impostos e tarifas migratórias. Fosse por amor, solidão ou a busca pelo Green Card (Residência permanente), ele casou-se duas vezes com cidadãs norte-americanas, após ter entrado no país com um visto de turista em 1993. Seu único problema com a lei foi uma multa de US$ 200 por desordem em 1997: Quando trabalhava num posto de gasolina, quando mostrou a arma sem licença do proprietário do posto para evitar um assalto. O incidente o perseguiria. A morte anônima de Ahmad demonstra como imigrantes podem desaparecer no sistema carcerário, sua vida norte-americana anônima mostra como 9/11 mudou o destino daqueles presos no emaranhado das leis migratórias.

No final, seu corpo retornou numa caixa de madeira à sua vila natal, para ser enterrado por sua viúva paquistanesa e seus dois filhos, concebidos durante suas duas únicas viagens ao país em 12 anos. Ele sempre sonhou em trazê-los aos Estados Unidos, sua esposa, Rafia Perveen, disse através de um tradutor.

Quando os agentes de imigração entraram no apartamento de 2 cômodos de Ahmad em 2 de agosto de 2005, eles estavam buscando uma outra pessoa, seus amigos disseram – um colega de apartamento suspeito de violar seu visto de estudante por trabalhar. Entretanto, eles ordenaram que Ahmad comparecesse à sede da Imigração em Manhattan (NY) em 11 de agosto.

Ele compareceu e foi enviado algemado ao Monmouth County Correctional Institute em Freehold (NJ). Seu incidente no posto de gasolina apareceu no computador como uma ofensa envolvendo arma de fogo, razão suficiente, depois de 9/11, para as autoridades detê-lo e darem início ao processo de deportação.

A aplicação para o Green Card patrocinada por sua esposa norte-americana Shanise Farrar, natural do Bronx (NY), foi oficialmente negada em março de 2005, deixando-o sem um visto válido. Embora o casal tenha reaplicado, até o momento que ele foi preso eles não se falavam há mais de 1 ano e Farrar, que havia recebido um aviso de investigação por fraude no casamento, não sabia de sua detenção.

“Eu o amava”, disse ela. “Somente porque, uma vez que o World Trade Center havia caído, eu mudei de idéia”.

Ahmad trabalhou à noite em um posto de gasolina no Texas que foi roubado 7 vezes em 35 dias, disse a gerente Kathy Jean Lewis, que casou-se com ele quando lutava contra um câncer de tiróide. Após a recuperação da esposa, ele fez uma viagem de 3 meses ao Paquistão, onde ele casou-se com uma prima em 1998. Seu casamento com Lewis, 53 anos, foi anulado em uma Corte no Texas em 1999.

Ele não guarda mágoas. “Ele apoiou-me emocionalmente quando eu estava doente”, disse ela lembrando-se quando ele a levava ao seu restaurante favorito durante o período que ela submetia-se a radioterapia. “Ele tinha um grande coração”.

Sua segunda esposa norte-americana, Farrar, conta uma história similar. Eles casaram-se na Prefeitura de Manhattan em julho de 2000, quando ela era uma mãe solteira lutando para sustentar um filho como atendente numa companhia de taxi e eles aplicaram para o Green Card. Ela não sabia que ele tinha uma esposa no Paquistão e nega que o casamento tenha sido “pelos papéis”.

Em novembro de 2002, o casal falhou durante uma entrevista com o agente de imigração, que desconfiou da legitimidade da união e eles nunca apareceram para outra entrevista marcada para 2003, pois eles haviam se separado.

Quando apareceu algemado perante a Corte em 17 de agosto de 2005, tudo que ele queria era retornar ao Paquistão. Ele insistiu em abrir mão de seu direito de lutar contra a deportação, mesmo que ficasse proibido de retornar aos EUA por 10 anos, disse Kenneth M. Schonfeld, advogado de imigração contratado por amigos de Ahmad, todos motoristas de taxi paquistaneses.

“Ele não agüentava o fato de estar em custódia”, disse o advogado e ele parecia “extremamente horrorizado” da Penitenciária de Monmouth. “É um lugar que aterroriza ou deprime qualquer um”.

Três semanas mais tarde, Ahmad morreu. Seus amigos foram informados que ele havia sofrido um ataque do coração quando estava na prisão e, apesar dos esforços em revivê-lo, ele foi considerado morto na sala de emergência do hospital às 5:51 pm em 9 de setembro. O resultado da autópsia constatou “arteriosclerose coronária oclusiva”.

Seus amigos não sabiam que a penitenciária possuía antecedentes de reclamações de detentos sobre negligência médica e abusos físicos e não permite que os guardas enviem os presos à unidade médica sem autorização prévia. Reclamações similares foram sobre inúmeros centros de detenção de imigrantes, fazendo que a administração Obama ordenasse a revisão do sistema.

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