Xerife “caçador de ilegais” é acionado judicialmente no Arizona
Na quinta-feira (19), Joe Arpaio terá que explicar suas ações perante um juiz federal no Tribunal Federal do Distrito de Phoenix
Cinco anos depois que ele iniciou o “combate à criminalidade”, realizando batidas migratórias que aterrorizaram vizinhanças latinas por todo o Condado de Maricopa, Arizona, o Xerife Joe Arpaio finalmente terá que se explicar. Não para as equipes de reportagem de canais de TV em Phoenix ou apresentadores da Fox News, mas perante um juiz federal, publicou o jornal The New York Times. A audiência de Melendres contra Arpaio, uma ação judicial civil, está agendado para começar na quinta-feira (19), no Tribunal Federal do Distrito de Phoenix. Os acusadores, representados pela American Civil Liberties Union (ACLU) e o Mexican American Legal Defense and Educational Fund, acusa o xerife de orquestrar uma campanha ilegal de discriminação e perseguição contra os latinos e todos que, por ventura, se parecem fisicamente com eles.
Eles alegam que o xerife e seus aliados, ajudados informalmente por residentes, denúncias anônimas e até mesmo grupos de motociclistas, realizaram batidas ilegais, buscas e prisões, batidas migratórias em vizinhanças e locais de trabalho e espalharam o medo entre cidadãos, residentes legais e imigrantes ilegais.
Um dos envolvidos na ação judicial, Manuel de Jesus Ortega Melendres, um cidadão mexicano que possuía um visto válido quando o xerife e seus auxiliares o prenderam em 2007. Ele alega que foi algemado e ficou detido por horas, não teve os seus direitos lidos ou sequer foi explicado porque ele estava sendo preso. Dois outros envolvidos, Velia Meraz e Manuel Nieto, foram abordados pelos policiais à mira de revolver durante uma batida realizada em um bairro residencial sem qualquer explicação. Ambos são cidadãos norte-americanos.
Os incidentes que serão apresentados à Corte podem ser adicionados à longa lista de abusos ocorridos há vários anos, nas ruas de Maricopa e penitenciárias do xerife. Em 2008, o jornal The East Valley Tribune of Mesa, uma cidade vizinha à Phoenix, publicou uma série de artigos abordando as batidas migratórias como um desastre no cumprimento da lei. Enquanto policiais corriam o condado realizando prisões baseados no status migratório, eles negligenciavam as suas obrigações profissionais, gastando milhões de dólares em horas extras e aparecendo sempre tarde nos locais de emergência, ao mesmo tempo em que o número de prisões por crimes cometidos e julgamentos despencou.
Apesar desses resultados, o Xerife Arpaio continuou sua campanha. A secretária do Departamento de Segurança Interna (DHS) poderia ter criticado suas ações há vários anos e se recusado a trabalhar com ele, mas, ao invés disso, ela permitiu que Arpaio continuasse os abusos, mesmo que o seu batalhão de fiscais da imigração, sob o programa federal 287 (g), atingisse 160 membros, o maior do país. O xerife tornou-se uma celebridade para os legisladores de direita, cortejado por políticos ansiosos para conquistar os votos do eleitorado contra os imigrantes. Um deles foi Mitt Romney, que aceitou o seu apoio para presidente em 2008.
Este caso parece o primeiro de uma avalanche de ações judiciais contras a política migratória praticada no Arizona. Uma ação, apresentada pelo Departamento de Justiça, acusando o Xerife Arpaio de abuso sistemático e generalizado dos direitos civis, já tramita nos tribunais.
Mês passado, o Tribunal Supremo dos Estados Unidos decidiu não anular uma emenda da lei de imigração do Arizona que exige que a polícia local verifique a documentação de indivíduos suspeitos de estarem ilegalmente no país. Mas alertou que essa emenda poderá ser acionada judicialmente tendo como base a igualdade de proteção, se houver evidências de discriminação racial pela forma com que ela for cumprida. A audiência dessa semana não lida com a conduta policial segundo a lei, mas sugere que o preconceito racial é um problema antigo, principalmente no Condado de Maricopa.
O Xerife Arpaio enfrentará as urnas na tentativa da 6ª reeleição neste outono. Ele tem insistido que não deve dar esclarecimentos a ninguém que não seja residente do condado, que continuam o reelegendo. Caso os eleitores não coloquem um fim nesses abusos, os tribunais e a Constituição terão a palavra final.



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