Brasileira é testemunha chave contra patrulheiro acusado de tráfico humano
Uma brasileira de 24 anos de idade, cujo nome foi mantido em sigilo pelas autoridades, alega ter pagado US$ 12 mil para atravessar a fronteira dos EUA a bordo de um “carro de polícia”
Em 7 de julho, começou o julgamento do patrulheiro Raul Villareal, antigo porta-voz da Patrulha da Fronteira em San Diego (CA), acusado de organizar uma quadrilha que traficava imigrantes mexicanos e brasileiros aos EUA utilizando viaturas oficiais, anunciou um promotor público. Segundo as autoridades, o réu iniciou as atividades ilegais em abril de 2005 e recrutou o seu próprio irmão, o também patrulheiro Fidel Villareal, como seu primeiro comparsa, disse o promotor público federal Timothy Salel. O Governo iniciou uma investigação no mês seguinte ao receber a denúncia de um informante.
“Eles decidiram fazer a fronteira trabalhar para eles, ao invés de defender essa mesma área, eles decidiram receber lucro da fronteira”, disse Salel aos jurados durante uma audiência, publicou o diário The Orange County Register.
Os advogados de defesa alegaram que as acusações são baseadas em testemunhas não confiáveis. Eles detalharam histórias envolvendo informantes inescrupulosos e cúmplices que prestarão depoimento. Nenhum deles disse se os irmãos falarão durante as audiências.
Os promotores públicos detalharam que os irmãos se demitiram de repente da Patrulha da Fronteira em junho de 2006, depois de receberem a informação que estavam sendo investigados e fugiram para o México. Salel disse aos jurados que as autoridades descobriram como os irmãos souberam da investigação, mas não forneceu detalhes.
Os irmãos, ambos de aproximadamente 40 anos, foram presos em outubro de 2008 na cidade de Tijuana e extraditados aos EUA para enfrentarem as acusações de tráfico humano e tentativa de suborno de testemunhas em San Diego. Eles alegaram inocência com relação à todas as acusações.
O caso é um dos mais famosos de corrupção envolvendo a Patrulha da Fronteira desde que a entidade iniciou a contratação em massa de agentes ao longo da última década. As ações judiciais contra os funcionários do Customs and Border Patrol, que supervisiona os patrulheiros e outros agentes de segurança, aumentaram nos últimos anos para 60, durante o ano fiscal de 2011, segundo o inspetor geral do Departamento de Segurança Interna (DHS). Entre outubro de 2007 e abril de 2012, já ocorreram 232 ações judiciais envolvendo patrulheiros.
Os promotores públicos alegam que os irmãos trouxeram ilegalmente centenas de imigrantes clandestinos aos EUA. Eles detalharam que um comandante da polícia de Tijuana garantia que eles chegassem de forma segura à fronteira, onde os irmãos Villareal os transportava em viaturas da Patrulha da Fronteira para outra área em San Diego, na qual outros motoristas os pegavam.
Os irmãos Villareal são naturais do estado mexicano de Jalisco e imigraram aos EUA em 1984, ainda na adolescência, segundo documentos apresentados no tribunal. Raul ingressou na Patrulha da Fronteira em 1995 e Fidel em 1998.
Ironicamente, Raul trabalhou como agente de informações públicas em San Diego e uma vez atuou como traficante de seres humanos durante uma campanha pública que visava alertar os mexicanos sobre os perigos de entrar ilegalmente nos EUA.
Salel prometeu aos jurados “uma grande variedade de evidências”, incluindo imagens de câmeras de segurança, ligações telefônicas e testemunho de clientes, informantes e supostos comparsas. Investigadores instalaram câmeras de segurança em postes públicos onde os imigrantes eram deixados, gravadores, monitores de localização (GPS) nas viaturas e seguiram os veículos através de aviões.
Os advogados de defesa consideraram as ações não suficientes e atacaram a credibilidade das testemunhas. “A falta de evidências durante a investigação de 18 meses é gritante”, disse Zenia Gilg, advogada de defesa de Fidel, aos jurados.
A mulher que atuou como principal elemento na quadrilha, Cláudia Gonzalez, é “a raiz de todo o mal neste caso”, disse David Nick, advogado de Raul. Ele alegou que Gonzalez, que talvez testemunhe, possa ter estado envolvida romanticamente com seu cliente.
Uma brasileira de 24 anos de idade, cujo nome foi mantido em sigilo pelas autoridades, alega ter pagado US$ 12 mil para atravessar a fronteira dos EUA a bordo de um “carro de polícia”. Ela detalhou que um policial em Tijuana a dirigiu até a fronteira para um patrulheiro em um veículo branco. O patrulheiro trajava um uniforme verde, boné e óculos de sol e dirigiu por 15 minutos, antes de ordenar que os imigrantes esperassem atrás de um arbusto no acostamento da rodovia por outro veículo que os levasse a um abrigo em San Diego.
Nick, advogado de defesa de Raul, disse que a promotoria pública se baseia em “testemunhas não confiáveis que possuem um forte motivo para mentir”. Ele acrescentou que as imagens captadas pelas câmeras de segurança não incriminam seu cliente.
Já a advogada de Fidel, Zenia Gilg, escreveu que a promotoria pública se baseia grande parte em 2 comparsas, os quais foram prometidos leniência caso testemunhassem e “declarações inconsistentes” de imigrantes.
Os promotores públicos disseram que os irmãos protegeram os seus bens depois de pedirem demissão da Patrulha da Fronteira. Raul transferiu a propriedade de sua casa no município de Nacional City para sua irmã caçula e os irmãos esvaziaram seus fundos de pensão.
Após mudar-se para Tijuana, Raul teve um desentendimento com um indivíduo que os promotores alegam ter sido seu comparsa, Hector Cabrera, após saber que os motoristas contratados por Cabrera estavam colaborando com as autoridades norte-americanas, disse Salel aos jurados. Uma vez, Raul apontou uma arma para a cabeça de Hector e ordenou que ele saísse de seu carro. Cabrera fugiu, após ser perseguido de carro, em Tijuana.
Cabrera se entregou às autoridades, assumiu a culpa relacionada às acusações de tráfico humano e talvez testemunhe contra os irmãos Villareal.



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