Crise economica força imigrantes a avaliarem vida nos Estado Unidos

Especialistas em imigração disseram não saber exatamente da existência de um ‘êxodo’ para a América Latina

Pedro Pablo dobra devagar seu cobertor estampado com a bandeira dos Estados Unidos e coloca-o em uma bolsa; junto com ele segue o seu Sonho Americano. “Eu deixei a minha família e perdí quatro anos da companhia dela. Pedirei que eles me perdoem”, comentou ele.

Pedro é um imigrante ilegal da Guatemala que veio aos EUA para sustentar sua esposa e cinco filhos. Quando ele chegou, o trabalho na contrução civil era abundante, mas ao longo do ano passado, disse ele, trabalhou somente três dias.

Recentemente, ele embarcou em um ônibus, somente de ida, pago pelo Consulado da Guatemala em Los Angeles (CA). “Pensei que poderia avançar aqui. Arrependo-me de ter vindo”.

Em todo os Estados Unidos, milhares de imigrantes – tanto legais e ilegais – estão enfrentando o mesmo dilema: continuam buscando emprego numa economia em crise ou voltam para casa, onde a situação econômica, muitas vezes, é ainda pior?

“As coisas estão muito dificeis e acho que acabam impactando aqueles na base da pirâmide social ainda mais”, comentou Abel Valenzuela, professor da Universidade da Califórnia-Los Angeles, que passou anos estudando os operários diaristas.

“Os operários estão realmente sentindo o impacto”, disse ele, conforme a página eletrônica CNN.com.

O ‘boom’ do crescimento econômico nos Estados Unidos durante as décadas de 1990 e 2000 criou uma grande demanda por mão-de-obra que variava desde construir casas à agricultura, matadouros à babás. Com a crise, muitos desses empregos simplesmente desapareceram , resultando em cada vez mais pessoas – imigrantes e americanos natos – indo em massa à agências de emprego ou fazendo filas nas calçadas em busca de qualquer tipo de trabalho que possam conseguir.

“Todos eles estão competindo pelos poucos empregos disponibilizados”, disse Valenzuela.

Especialistas em imigração disseram não saber exatamente da existência de um ‘êxodo’ para a América Latina, entretanto, existe a evidência de que operários diaristas, como Pablo, já começaram a fazer as malas – como resultado da crise econômica e endurecimento das leis migratórias.

Para alguns imigrantes, disseram os especialistas, a luta para superar o declínio da economia supera os motivos para deixar o país, incluindo:

• Um ou dois dias de trabalho por mês a US$ 8 a hora é geralmente melhor do que eles receberiam em seus países de origem.

• O aumento da segurança na fronteira tornar mais difícil voltar, caso deixem os EUA.

• O preço de atravessar a fronteira utilizando ‘coiotes’ (traficantes de pessoas) disparou de US$ 1.500 há 3 anos atrás para US$ 6 mil atuais.

“Não estou convencido que haja um êxodo”, disse Valenzuela. “Há um certo receio de ir embora e como resultado muitos preferem ficar – ou seja, eles estão escondendo-se ou vivendo nas sombras de nossas leis. Por isso, eles tendem a pensar duas vezes mais sobre voltar a seus países de origem, pois sabem que será extremamente dificil e muito caro retornar aos EUA, caso queiram realizar seus sonhos”.

Steven Camarota, do Centro de Estudos Migratórios, um grupo conservador sediado em Washington – DC, disse que dados do Censo indicaram que mais de 1 milhão de imigrantes deixaram o país ano passado, um movimento que começou antes que a crise econômica piorasse no final do ano passado.

Ele acrescentou que o aumento da segurança na fronteira e batidas nos locais de trabalho em busca de imigrantes ilegais “permitem que as pessoas saibam que as leis migratórias voltaram a funcionar”.

Com os ilegais voltando aos seus países, disse ele. “É extremamente positivo para dois grupos: os contribuintes e os nativos com baixo nível educacional”.

A falta de trabalho nos Estados Unidos também afetou vários países. As remessas de dinheiro feitas pelos imigrantes mexicanos caíram em 2008 pela primeira vez desde altas consecutivas em 13 anos ininterruptos. As remessas caíram 3.6%, de US$ 26 bilhões em 2007 para US$ 25 bilhões, segundo o Banco Central do México. O envio de dinheiro é a segunda maior forma de arrecadar divisas no México, perdendo somente para a exportação de petróleo. Outras nações da América Latina também sentiram o impacto da crise econômica nos Estados Unidos.

Erik Camayd Freixas, professor da Universidade Internacional da Flórida, que vem atuando há mais de 2 décadas como intérprete na Corte, viajou recentemente a Guatemala, onde ele presenciou os efeitos da queda das remessas feitas pelos imigrantes. “Todos estão falando sobre o assunto”, disse ele. “A economia local foi prejudicada e o desemprego é alarmante”.

Ele disse que inúmeras pessoas deportadas dos Estados Unidos estão tentando encontrar qualquer tipo de emprego na Guatemala. “Eles têm estado aqui há 6 meses e ainda não encontraram emprego”, comentou Freixas.

Por isso, disse ele, muitos imigrantes preferem ficar nos EUA, mesmo com os obstáculos enfrentados no país.

“A verdade é que, apesar de nossa taxa de desemprego ser 7.6%, a maioria dos norte-americanos não ocuparão as vagas que os imigrantes ocupavam”, disse Erik. “Certamente, eles não colherão tomates, grapefruits e laranjas”.

Camarota não concorda. Ele disse que os norte-americanos tendem a competir por trabalhos na construção civil – aqueles que não possuem sequer o ensino secundário – que estão desempregados e alcançam a impressionante taxa de 15%. “É muito dificil argumentar que estamos em falta de mão-de-obra básica”, disse ele.

Pedro vivia em um apartamento de 1 quarto que dividia com outros 7 indivíduos. Seu “quarto” consistia de um canto na sala de estar, onde ele mantinha seu cobertor, bolsa e uma foto da família.

“Não consegui vencer aqui”, disse ele. “Se tiver que sofrer, é melhor sofrer na Guatemala com a minha família”.

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