Amigo de mortos em chacina no Mexico relata saga na fronteira dos EUA

O brasileiro “G”, 19 anos, conterrâneo de Juiliard Aires Fernandes e Hermínio Cardoso dos Santos, vítimas do massacre ocorrido no México, fez a mesma trajetória 3 anos e meio antes

Atualmente, a indústria aérea comercial permite que passageiros cruzem confortavelmente diversas áreas do planeta em questão de horas. Uma realidade bastante diferente dos imigrantes anônimos que têm o visto recusado nos consulados e, determinados, tentam deses­peradamente conquistar uma fatia do padrão de vida norte-americano.

A equipe de reportagem do BV conseguiu com exclusividade entrevistar o brasileiro, identificado como “G”, 19 anos, natural de Sardoá, interior de Minas Gerais, residente em New Jersey, cuja viagem de 59 dias pela Guatemala, México e EUA foi caracterizada por sofrimento, fé e esperança em dias melhores. Residente nos Estados Unidos há 3 anos e meio, “G” morava no mesmo bairro e, portanto, conhecia Juiliard Aires Fernandes e Hermínio Cardoso dos Santos, 24 anos, ambos vítimas da chacina que deixou 72 mortos em San Fernando, México, e abalou a opinião pública internacional.

“Os meninos eram gente boa, todos trabalhadores. Nunca ouvi falar nada mal deles”, disse “G”.

img01 270235397 Amigo de mortos em chacina no Mexico relata saga na fronteira dos EUAJuiliard Aires Fernandes e Hermínio Cardoso dos Santos, vítimas do massacre ocorrido no MéxicoO município de Sardoá fica localizado a 1 hora e meia de Governador Valadares, a principal cidade no Vale do Rio Doce. Motivado pelo acúmulo de dívidas resultantes de um açougue da família, o jovem, na ocasião com 15 anos de idade, detalhou que embarcou em um avião na capital mineira com destino a São Paulo e, posteriormente, Guatemala. Uma vez no país, ele e 22 outros brasileiros, sendo 2 naturais de Ipatinga e 1 de Periquito, ambos municípios mineiros, atravessaram o México rumo aos Estados Unidos.

“Viajei de São Paulo e desci na Guatemala, uma vez lá, a gente foi viajando de van e ônibus para chegar ao México. Chegando no México, caminhamos a pé umas 22 horas e ficamos dormindo em casas no meio do mato para atravessar o país. Em Reynosa (cidade localizada no estado de Tamaulipas), ficamos em uma casa e também em outros lugares esquisitos, bastante ruins. Nas casas em que ficamos tinham muitas pessoas armadas, que não deixavam a gente sair. Muitas pessoas armadas mesmo”, detalhou “G”.

A chacina que resultou na morte dos 72 imigrantes ocorreu em San Fernando, no estado mexicano de Tamaulipas, onde também está o município de Reynosa, suposta área de ação de traficante de drogas.

Acompanhados por homens fortemente armados, os imigrantes eram levados através de zonas rurais mexicanas. “Você não via ninguém, somente algumas casas de fazenda, às vezes, com 22 horas de distância das outras. Depois que chegamos em Reynosa, aconteceu a travessia do rio para, então, chegar aqui. A pior parte mesmo foi no México, nós descemos na Guatemala, mais aquilo lá é difícil”, disse ele.

Sob custódia dos homens armados, os brasileiros temiam pela segurança. “Medo, você está em um lugar daquele ali cercado de gente armada e os caras te obrigando a fazer o que não deve (…). Havia umas meninas com a gente que alguém mandou dinheiro, mas ainda não havia chegado. Elas não eram brasileiras, eram hondurenhas. Os caras batiam nelas, espancavam, tiravam elas de perto da gente e não podíamos fazer nada porque eles estavam armados. Eles batiam nelas para que dessem conta do dinheiro. Até que enfim, o pai delas enviou o dinheiro, mas eles (homens armados) já tinham ‘acabado’ (espancado em excesso) com elas. Eram três meninas hondurenhas com idade entre 22 e 23 anos”, relembrou “G”.

Conforme relatos do brasileiro, as três jovens eram acordadas várias vezes de madrugada por homens armados e levadas para o andar de cima do imóvel, em Reynosa, México.

No Texas, um grupo fortemente armado, trajando uniformes policiais, invadiu a residência onde estavam os imigrantes e os tomou como reféns. “De repente, entrou um homem uniformizado, tinha até um carro de polícia no meio, amarraram os ‘coiotes’ (traficantes de pessoas) e nos renderam. Foram 4 homens armados e um vestido de polícia. Nos jogaram dentro de uma caminhonete, no Texas, e nos levaram para uma outra casa. Todos achavam que eram policiais e chegamos a pensar: poxa, sofremos tanto para chegar no Texas e a polícia nos pegar. Mas (eles) nos falaram que não eram policiais e sim seqüestradores”, disse ele.

Segundo o jovem brasileiro, o “policial” exigiu US$ 10 mil de resgate por cada pessoa, entre eles, 22 brasileiros, mas depois de várias negociações, o valor baixou para US$ 6 mil por pessoa. Ao longo de 13 dias, os imigrantes consumiam 1 pequeno pacote de macarrão instantâneo por dia. No interior da residência no Texas, os imigrantes tinham que sentar e dormir no chão, pois o sofá era ocupado por homens armados 24 horas por dia. Eles eram proibidos de escovar os dentes e tomar banho, pois os seqüestradores temiam que o aumento do valor na conta de água chamasse a atenção das autoridades e quem, por ventura, burlasse a determinação era cruelmente espancado.

“Você não podia sentar no sofá senão eles te agrediam. Você não podia usar o banheiro porque eles te batiam. Você não podia abrir a torneira, não podia fazer nada. Eles falaram que gastava muita água e a polícia descobriria. Aconteceu de amigos nossos lavarem o rosto e tomarem banho escondido e apanharam. Eles bateram em brasileiros”, disse ele.

Além da tortura física, a alimentação era escassa, com os imigrantes chegando a ficar três dias seguidos sem comerem. Aqueles que, por ventura, reclamassem corriam o risco de sofrer retaliações.

Após 59 dias de incertezas, finalmente, “G” reencontrou-se com um irmão em Jersey City (NJ), depois de pagar a quantia de US$ 5 mil a um atravessador. Ele estima que tenha gasto o total de US$ 12 mil em todo o percurso. Atualmente, “G” e 4 irmãos, além de 1 cunhado, residem no Estado Jardim.

Entretanto, nem todos brasileiros chegam ao final da árdua jornada de forma feliz. Segundo “G”, um brasileiro conhecido como Everton, natural do município de Poté (MG), fraturou uma perna pouco antes da travessia pelo deserto, foi pego por autoridades norte-americanas na fronteira e, posteriormente, deportado ao Brasil.

A arriscada travessia impactou “G”. Conforme ele, “a vida da gente muda assim completamente. Nós aprendemos a dar valor às coisas, percebemos que nada é brincadeira. Você passar 41 dias passando fome, vendo as pessoas tentarem se defender. Você ter 15 anos de idade como eu tinha e presenciar o que eu vi na estrada, dá para chegar aqui meio atordoado”.

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