Temendo o ICE, imigrantes deixam de denunciar violência doméstica

Foto24 Prisão do ICE Temendo o ICE, imigrantes deixam de denunciar violência doméstica
Aparentemente, o medo em ser deportado, algumas vezes, suplanta a coragem em denunciar os casos de violência doméstica às autoridades locais (Foto: ICE)

A polícia de Houston (TX)registrou 6.273 relatos de violência doméstica envolvendo hispânicos em 2017, em contraste com 7.460 em 2016

Durante anos, ela dormiu com uma arma debaixo do travesseiro, vivendo com medo de um namorado que a espancou, controlou sua vida e ameaçou matá-la e a seus filhos. A mexicana Domênica, que imigrou aos EUA em 1995 e se tornou parte da comunidade de imigrantes em Houston (TX), disse que o companheiro era cidadão americano e, muitas vezes, “a lembrou” que poderia ser deportada se fosse à polícia.

“Ele me disse que ninguém me ajudaria, porque eu não tenho documentos”, relatou Domênica, 38 anos, que tem um filho e uma filha com o ex-namorado e pediu que seu sobrenome não fosse usado para protegê-los. “Eu estava com ele assim por um bom tempo. Eu senti que não havia ajuda para mim”.

Em agosto do ano passado, temendo pela segurança dos filhos, Domênica decidiu fugir. Ela nunca telefonou para a polícia. Ela disse que preferiria se esconder que aparecer no tribunal e arriscar ser separada de seus filhos ou mandada para o México.

“Essa cena está acontecendo o tempo todo”, disse Art Acevedo, chefe de polícia de Houston, em entrevista ao jornal The New York Times. Embora a população imigrante de Houston seja uma das que mais crescem no país, a cidade no ano passado registrou uma queda de 16% nos relatos de violência doméstica na comunidade hispânica. A polícia culpou o declínio à nova política migratória adotada no Texas e o clima político cada vez mais hostil em todo o país em torno da questão da imigração ilegal.

A polícia de Houston registrou 6.273 relatos de violência doméstica envolvendo hispânicos em 2017, em comparação com 7.460 do ano anterior.

Departamentos de polícia em várias cidades com grandes populações hispânicas, incluindo Los Angeles, Denver e San Diego (CA), também experimentaram um declínio nos relatos de violência doméstica e agressão sexual em suas comunidades hispânicas. Em Houston, os relatos de violência doméstica latina diminuíram mesmo quando a comunidade hispânica da cidade, hoje 44% da população, cresceu significativamente.

“Imigrantes indocumentados e até mesmo imigrantes legais têm medo de denunciar crimes”, disse Acevedo, que falou publicamente sobre a necessidade de os líderes locais cuidarem dos imigrantes sob a pressão crescente das autoridades estaduais e federais. “Eles estão vendo as manchetes de todo o país, onde agentes de imigração estão aparecendo em tribunais, tentando deportar pessoas”.

Um caso atraiu manchetes nacionais em fevereiro de 2017, quando uma transgênero indocumentada do México foi a um tribunal em El Paso County, no Texas, para registrar uma ordem de proteção contra seu ex-namorado. Ela foi detida no local por agentes federais.

Em entrevistas em Houston, ativistas defensores das mulheres, trabalhadores em abrigos de vítimas de violência doméstica e imigrantes compartilharam histórias detalhadas de mulheres que se tornaram mais medrosas que nunca em relação a qualquer contato com as autoridades, ligando esses temores à ameaça de deportação. Uma mulher de 38 anos disse que nunca ligou para a polícia denunciando o marido, que frequentemente a espancava, nem mesmo quando estava grávida de 6 meses e ele a socou no estômago, fazendo com que ela perdesse o bebê. Eventualmente, quando o marido ameaçou matá-la, ela o deixou; entretanto, ela não o denunciou.

“Eu sei que a polícia está lá para ajudar”, disse a mulher, que temia ser identificada e deportada se desse seu nome. “Mas com as leis agora, muitas mulheres como eu têm muito medo de se apresentar (nas delegacias)”, relatou.

Em todo os EUA, as autoridades documentaram declínios nas denúncias de crimes envolvendo imigrantes. Embora a relutância geral em contatar as autoridades sempre tenha sido um problema para os departamentos de polícia que lidam com comunidades de imigrantes, a polícia diz que muitos dos maiores declínios começaram no início de 2017, quando o presidente Trump assumiu o poder e ordenou que a o Departamento de Imigração (ICE), priorizasse qualquer indocumentado encontrado pelos agentes.

As ordens de deportação aumentaram durante todo o ano de 2016, ou seja, muito mais que durante os dois últimos anos do governo Obama. As detenções de imigrantes que comparecem nos tribunais também aumentaram.

Uma pesquisa com centenas de policiais, defensores de vítimas e promotores públicos em todos os 50 estados, divulgada pela American Civil Liberties Union (ACLU), em maio, revelou inúmeros relatos de que imigrantes indocumentados estão relutantes em contatar a polícia, denunciar criminosos e testemunhar contra os assaltantes. Um total de 82% dos promotores entrevistados relataram que os casos de abuso doméstico se tornaram mais difíceis de processar.

Entretanto, o fenômeno no Texas se destacou. No Condado de Harris, que inclui Houston, o número de imigrantes transferidos de prisões para a custódia de agentes federais que executam ordens de deportação aumentou 60% nos primeiros 5 meses de 2017, segundo uma análise do Migration Policy Institute (MPI), um centro de estudos de imigração com sede em Washington-DC.

Em setembro, a Assembleia Legislativa do Texas aprovou uma lei abrangente que ordena que os departamentos de polícia locais cumpram os pedidos das autoridades federais de entregar detentos locais suspeitos de estarem no país ilegalmente. O governador Greg Abbott, um republicano, declarou que a medida era necessária para evitar que os municípios estabelecessem as chamadas “cidades-santuário”.

 

 

 

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