A clandestinidade é um beco escuro  

robert A clandestinidade é um beco escuro  Com o endurecimento das leis anti-imigrante nos EUA e as recorrentes tragédias na fronteira com o México, fica um gosto amargo em nossas bocas e muito de incompreensão.

Não se trata de uma irresponsabilidade, como dizem alguns.

Fugir da violência e da miséria em seus respectivos países é, sim, uma questão de vida e morte.

Trata-se de um risco que muitas pessoas correm conscientes de que, talvez, não cheguem a atravessar a fronteira.Alguns pagam com a própria vida e é grande o número de cruzes fincadas a céu aberto nos desertos fronteiriços.

A imagem da fotografia de pai e filho boiando nas margens do Rio Grande causa grande comoção. Mostrei-as às minhas filhas, nascidas aqui nos EUA, para que tivessem uma compreensão dos sacrifícios que muitas pessoas fazem para alcançar o sonho de dar uma vida melhor para a família.

Fico muito aborrecido quando vejo um imigrante que conseguiu sua legalização, desprezar aqueles que não tiveram a mesma sorte.

Alguns, mais exaltados, postam nas redes sociais incompreensíveis manifestos de apoio às medidas cada vez mais recrudescidas de Trump.

Não consigo compreender.

Muitas destas pessoas se legalizaram usando esquemas ilegais, como contratos de trabalho e casamentos fraudulentos, em que pagam uma verdadeira fortuna em troca do cobiçado cartão verde.

E, agora, eles vem falar de cumprimento da “lei”, numa hipocrisia acachapante.

Conheço pessoas que vivem nos EUA há 30 anos e ainda vivem nas sombras da clandestinidade por absoluta falta de oportunidade.

Elas sempre trabalharam incansavelmente, ajudando o país a crescer.

São bons cidadãos sem passagem pela polícia e trabalham de sol a sol. Criam os filhos, vão à igreja e se permitem pequenos prazeres, como churrascos durante o verão com familiares e amigos. E pouco mais.

Grande parte destes imigrantes pagam impostos e jamais usufruíram de nenhuma benesse dos serviços sociais proporcionados pelo governo federal aos residentes no país.

Enquanto esperavam por uma reforma migratória ou a legalização através dos filhos (negada recentemente com o cancelamento do DACA), perderam o fio da meada e a ligação com o lugar de origem.

Ficaram impossibilitados de viajar ao lugar que os viu nascer e não viram a formatura de um sobrinho, não acompanharam a mãe ao hospital e não puderam ir ao funeral do próprio pai.

Não conviveram com filhos, nem tomaram parte de seus crescimentos, apesar de enviarem, religiosamente, o dinheiro que proporcionou comida, saúde e escola em terras brasileiras. Conheço centenas de casos assim.

Já não são mais brasileiros, em essência, porque assimilaram outra cultura e passaram mais da metade de suas vidas em um outro país; mas também não são também norte-americanos, porque não conquistaram o direito de ir e vir, bem como não gozam do benefício de andar de cabeça levantada pelas ruas sem temer uma deportação..

A clandestinidade é um beco escuro onde, se depender a boa vontade do atual presidente, jamais chegará a luz.

Cada um de nós tem uma história bonita, feita de abnegação, suor e luta, grandiosa o bastante para servir roteiro de um filme.

Um belo filme feito apenas de grandes protagonistas e pouquíssimos vilões.

 

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