A grande descoberta

ilustra A grande descobertaA poesia foi minha primeira forma de expressão escrita. Eu era adolescente em Governador Valadares e começava a me encantar com a palavra, interessando-me inicialmente pelas letras de canção impressas nos encartes dos discos.

Eu ficava horas a fio esmiuçando as letras de Chico Buarque, Capinam, Caetano Veloso, Fausto Nilo, Abel Silva e Belchior, meus favoritos naquele momento fértil da MPB. Lia, relia e me comovia. Mas não me arriscava a rabiscar nada. Até que houve um dia que tudo mudou.

Eu tinha 18 anos de idade e servia o exército em Juiz de Fora. Era setembro e meu pai havia se deslocado àquela cidade para me ver desfilando com outros fantoches verde-oliva .

Marchei e, por volta do meio dia, já estava no hotel onde ele se hospedara, sedento por um abraço e imaginando que me levasse para almoçar em um bom restaurante. Mas ele tinha outros planos: almoçaríamos em um presídio.

Explico: meu pai queria visitar um velho amigo que se encontrava encarcerado em uma penitenciária da cidade.

Tratava-se de um amigo dos tempos em que ele ingressara na polícia militar e que cumpria pena por ter se transformado em um dos mais temidos pistoleiros de aluguel de todo o interior mineiro.

Chegando lá, fomos recebidos com alegria. Eu conhecia quele homens desde menino.

 

Tratava-se de um homem miúdo, tinha os cabelos longos e um pronunciado cavanhaque. Seu olhar era penetrante e firme. Antonio Augusto estava bastante diferente de quando o havia visto pela última vez, uns oito anos antes.

Naquele encontro ele havia me presenteado com um livro retratando a participação brasileira na batalha de Monte Castelo, na Segunda Guerra Mundial. A primeira coisa que ele me perguntou, logo na chegada, foi sobre o livro.

Confirmei que havia lido, sim, e ele me testou para saber se eu falava a verdade. Ficamos uns quinze minutos falando sobre a obra.

O dia me transcorreu com a estranheza de quem passava seu primeiro dia dentro de um presídio, ainda que como visitante.

Almoçamos arroz, feijão, carne de panela, salada de tomate e bebemos suco de laranja. A sobremesa foi uma gelatina vermelha, muito rala, que imaginei ser de framboesa. A comida era muito parecida com a que me serviam no quartel. Só que ligeiramente melhor.

Na hora da despedida, o amigo de meu pai me perguntou, do nada, se eu gostava de poesia. E eu respondi que sim.
Indagou sobre meu autor favorito e eu respondi: Chico Buarque.

Ele disse que também gostava de Chico Buarque, mas argumentou que eu precisava me interessar por autores outros que não os da palavra cantada. E citou Augusto dos Anjos.

Eu não sabia quem era Augusto dos Anjos e ele deu uma cátedra sobre o poeta simbolista, que havia publicado apenas um livro, mas grandioso o suficiente ao ponto de colocá-lo entre os maiores nomes da poesia brasileira em todos os tempos.

Ao final da aula, Antonio Augusto recitou Versos Íntimos, obra-prima do poeta paraibano. E recitou com fúria tamanha, que quando terminou de dizer o último verso, eu estava completamente arrepiado, encolhido em um canto da cela, comovido até o último fio de cabelo, quase chorando.

 

“Toma um fósforo. Acende teu cigarro!

O beijo, amigo, é a véspera do escarro,

A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,

Apedreja essa mão vil que te afaga,

Escarra nessa boca que te beija!”

 

Saí daquele lugar como se tivesse sido atropelado por um trem. Chegando ao quartel, passaria a noite em claro, escrevendo poemas, ‘cometendo’ versos muito ruins. Mas, ainda assim, versos.
Parira ali, alavancado por aquele insólito encontro, os primeiros poemas.

Havia me tornado poeta e minha vida havia sido transformada para sempre.

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