A mão de Deus

tibaes roberto A mão de Deus(Para Jorge e Anabela)

No aeroporto Francisco de Sá Carneiro, na cidade do Porto, uma voz conhecida faz um “boo” ao pé-do-ouvido, no que me toca o ombro.
Quase dou um pulo, gato velho, ainda sonolento pelas sete horas de travessia do Atlântico e visivelmente baqueado pelas cinco horas de con-fuso horário.
Abraço o parceiro Bispo Filho e ele diz que me reconheceu pelas costas e que eu estou ficando careca, com um cocoruto de frade.
Não foi um começo auspicioso.
Primeiro, meu parceiro de escrevinhações há três décadas, tenta me assustar com um “boo” ao pé-do-ouvido.
Em seguida, assusta-me, de fato.
Vou ao banheiro do saguão do aeroporto, olho-me no espelho assim, meio de ladinho, e constato: estou realmente perdendo cabelo, ali na região extrema do topo.
A caminho da cidade de Braga, na província do Minho, norte de Portugal, somos reminiscência e olhar na paisagem.
Instalamo-nos no hotel Mercure, no centro da cidade, e somos recepcionados à noite pelo poeta Jorge Pimenta e sua bela família.
Bom vinho, boa prosa, excelente comida.
Conheço bem esta casa.
Sinto-me parte deste clã desde que estive na cidade pela primeira vez,  em 2011,  com a esfarrapada desculpa de assistir a um concerto de reunião de uma banda portuguesa.
No que vamos devorando um delicioso arroz de camarão preparado por Anabela (precedido pela antológica alheira de caça, que se registre), vamos tomando conhecimento do nosso roteiro de atividades nos dias que se seguem.
Bispo Filho tem encontro marcado com médicos bracarenses dia sim, dia não. Precisa de acompanhamento em um procedimento iniciado no Brasil. E eu ainda tenho que escrever uns textos para o Brazilian Voice.
Nos intervalos, passeios inesquecíveis por Braga e Guimarães, entrevistas na imprensa local, vinho, presunto, pudim Abade de Priscos, água das Pedras Salgadas e dolce far niente.
O lançamento de Meninos de São Raimundo está marcado para as 21 horas da noite de sexta-feira, 13 de setembro, no Mosteiro de Tibães, em seu recém-inaugurado espaço cultural, no lugar onde um dia foi uma cavalariça.
Eder Asa, amigo mineiro que residiu em Braga, informa-me pela internet que fizemos uma escolha arriscada.
A livraria FNAC, dentro do maior shopping center da região, bem no centro da cidade, é garantia de público. E aquilo ficou martelando minha cabeça, como um sino de igreja anunciando um funeral.
Optamos pelo mosteiro ao invés da livraria e agora é tarde demais.
No dia do lançamento, passo a tarde em Tibães.
A antiga Casa-Mãe da Congregação Beneditina Portuguesa, situa-se a 6 kms a noroeste de Braga, rodeado por plantações de uva e milho. Trata-se de uma imponente construção de 900 anos e que enche os olhos, um lugar erguido para a devoção a Deus e seus silêncios.
Retono ao hotel no início da noite, tomo um banho demorado e encontro-me com Bispo Filho no saguão.
Chegamos ao mosteiro às 20:45, quinze minutos antes da hora marcada e apenas quatro carros ocupam o grande estacionamento.
Faço as contas: um carro é do padre, outro do sacristão, o nosso, e é provável que aquele último, um Renault com placa de Paris, seja de um turista.
Bate uma agonia imensurável e as palavras de Éder Asa reverberam cada vez mais alto, deixando-me resignado com o fato de que o lançamento de nosso tão esperado livro, está fadado ao fracasso logo em sua primeira noite.
Faltam apenas cinco minutos para a hora marcada e observamos um clarão bem ao longe.
Na estrada sinuosa, feita de pequenos sobe-desces, uma espécie de tobogã de asfalto margeado pela vegetação, o olhar se ilumina.
Vemos o primeiro farol de automóvel vindo em nossa direção.
E atrás daquele farol, vem um novo farol.
Seguido de um outro e mais outro e outro mais.
E outros tantos faróis.
Formam um comboio inesquecível, iluminando a noite até pararem, um por um, bem pertinho de nós.
Vamos entrando pela porta principal do mosteiro, revigorados, e as pessoas vão se sentando até que não sobra um único assento vazio na platéia preparada especialmente para a noite do lançamento de Meninos de São Raimundo em Portugal.
Tomamos nosso lugar à mesa e o pião começa a girar.
Um arrepio gostoso toma conta de nós.
Somos tratados como filhos da terra, meninos de Braga, que acabam de testemunhar e viver um pequeno milagre.
E o afeto se multiplica.
Como peixes e pães.

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