A voz que permaneceu em mim

20181022 114840 A voz que permaneceu em mimEle cruzava a cidade com um sistema de som improvisado – aquela caixa de marimbondo enorme e estridente – sobre o Vemaguet da família, e saía pela periferia e ruas do centro anunciando a perda de alguém. Sua voz anasalada, quase cômica, dava a saber:

“Noootaaaaa de falecimeeentôôôô.

Faleceu na noite de ontem, 11 de janeiro, de parada cardíaca, o Sr. José da Silva Pereira.

Faleceu durante o sono, deixando a viúva Conceição Alves da Silva e quatro filhos. O enterro será amanhã, às 9 horas da manhã, no cemitério Santa Rita.

A família enlutada agradece”.

Mudavam os mortos e as causa mortis, as viúvas e os órfãos, mas a voz de João Dornelas era sempre a mesma. Assim como o seu bordão.

Quando não anunciava defuntos pelas ruas de Governador Valadares era um esforçado vereador.

A voz de João Dornelas nunca mais saiu de mim.

Rapazote, eu morria de medo de sabê-lo recitando o meu nome pelas ruas da cidade.

Que tardasse, pedia eu.

Que eu vivesse mais do que Jesus Cristo e ultrapassasse os trinta e três.

Ou, que chegasse aos quarenta, como o meu pai naqueles dias.

Afinal, eu ainda queria ter carteira de trabalho assinada, conhecer Porto Seguro e comprar um automóvel.

Queria também ir a Porto Alegre para tremer de frio escutando uma milonga e possuir uma casa na Ilha das Araújos.

Adoraria ver o Cruzeiro se sagrar campeão brasileiro e da Libertadores.

E viver um grande amor, além de aprender a dançar boleros.

O tempo passou e eu ainda não fui a Porto Alegre ou Porto Seguro.

Não aprendi a dançar, porque nasci com dois pés esquerdos. Mas há poucos dias ensaiei uns passinhos sem música e remocei vinte anos.

A casa da Ilha dos Araújos talvez nunca frutifique, pelo fato do meu coração jamais ter saído de São Raimundo.

O tempo passou muito depressa, depressa demais, contraí dívidas materiais e afetivas que nem sei se darei conta de pagar, mas descobri que João Dornelas virou nome de rua e escola do ensino médio, o que me deixou tolamente pensativo:

Quem terá anunciado a morte de João Dornelas?”

Teria ele deixado uma gravação anunciando o próprio fim?

Sua morte foi anunciada por um filho, um neto, ou outro parente que tenha herdado o negócio da família?

E, agora que ele se foi, quem dá voz aos mortos em Governador Valadares?

Quem?

Ele e seu timbre único fazem parte de um imaginário que insiste em permanecer em mim.

Um imaginário que não envelheceu, apesar de pressentir que estou bem mais próximo de onde está João Dornelas, hoje, do que estava quando eu escutava seus anúncios macabros pelas ruas da cidade.

Ele está guardado em meus tímpanos e sob a minha pele, como os radialistas Luiz Alberto Teixeira, o Beto Tranca-Rua; e Maninho, um tetraplégico com voz de anjo.

Se os anjos falassem, teriam a voz de Maninho, que fazia a cidade sonhar com dias felizes na frequência da Rádio Por um Mundo Melhor. As moças suspiravam com aquela voz. Os moços invejavam.

Um dia vi Maninho chupando um picolé nas imediações da Praça Serra Lima.

Estava em sua cadeira de rodas e transpirava na tarde modorrenta daquela cidade em chamas.

Era um cadeirante olhando para o cruzamento da avenida Minas Gerais com rua Afonso Pena e eu entendi ali, naquele momento, que o homem da voz de anjo era tão humano quanto eu.

Que ele sentia calor e gostava de picolé, como eu.

Da Governador Valadares da segunda metade dos anos 1980 eu carrego, até hoje, a eletricidade das manhãs de domingo na pracinha. Ficaram outras vozes.

Era ali que a minha geração se encontrava para trocar abraços, recitar poemas e beber cerveja.

Ali eu escutava Adão O’hara e Rita de Cáscia. Escutava Nídio Porto e outros crooners dos conjuntos locais desfiando repertórios que ainda hoje tocam na minha saudade.

Ficou ainda a voz do vento balançando os coqueiros e o barulho dos trovões sobre o telhado da casa de meus pais, mostrando nossa vulnerabilidade.

Ficou o murmúrio do Rio Doce avisando que estava indo para o mar.

Ficou o ‘vapo-vapo’ dos vagões da CVRD contrabandeando nossas riquezas minerais.

Mas ficou, principalmente, o fantasma da voz de João Dornelas insinuando as minhas iniciais, anunciando a proximidade do fim.

 

Que tarde, bato três vezes na madeira.

Que tarde muito.

Que a vida espiche sem pressa dentro de mim.

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