Tiê, cantora e compositora da delicadeza, lança seu primeiro CD

O universo da música brasileira atual está densamente povoado pela presença feminina. De cada canto surgem novas e talentosas cantoras, instrumentistas e compositoras. Cada qual na sua praia, cada qual no seu mundo, cada uma com o seu tanto a dizer e a se realizar no ofício de ser música.

Pronta para ingressar nesse cenário surge a paulistana Tiê. Sweet Jardim (independente) tem produção de Plínio Profeta, que também toca guitarra, teclado, violão, piano, baixo, viola caipira, cajón e banjo. Nele, ela conta com participações especiais, como a de Toquinho, que toca violões na faixa que encerra e dá título ao CD.

Vem o espanto. Cada uma das dez faixas tem a força que reside justamente numa aparente fragilidade. Cada verso soa parecendo como se já o tivéssemos ouvido. Mas é claro que já ouvimos alguns deles em conversas à beira mar, em discussões à mesa do bar, em juras de amor entre lençóis, na hora de amar… A poesia de Tiê fala da vida cotidiana, de seus temores e estranhamentos, da beleza simples presente em cada gesto, em cada olhar.

As melodias são carregadas de infantilidades. Não a que se percebe nos adultos levianos, mas a que se vale da inocência das crianças para revelar o som de palavras encantadoramente ingênuas.

Quase sempre tendo o violão de Tiê como centro dos bons arranjos, tudo o que soa, soa delicado, cuidadoso. Sweet Jardim tem seis canções só dela. As outras quatro foram compostas em parcerias diversas.

Na belíssima “Passarinho”, com Dudu Tsuda, o cello denso de Luciano Correa cria um rico contraste com a jovialidade da voz e com a simplicidade da melodia e dos versos confessionais de Tiê: “Quando mamãe olhou pra mim/ Ela foi e pensou/ Que um nome de passarinho/ Me encheria de amor”.

O espanto cresce. Com sua voz pequenina e afinada, Tiê não teme se expor. Num CD que tem boa mixagem, resultando num som caloroso, ela busca suas verdades musicais que lhe vêm da alma; saca o mundo através de lentes que escancaram medos e dores; de sua praia vê o mar que lhe engrandece a intenção revelada na música feita para melhor se compreender e mais amor distribuir.

“A Bailarina e o Astronauta” (com Gustavo Ruiz) é pura magia. A melodia flutua sobre a corda bamba. O piano toca, o cello também, mãos dadas a percorrer o mundo da música que se equilibra enquanto sonha com amores (im)possíveis.

“Assinado Eu”, bilhete de explicação para uma despedida, mistura o violão e a voz da autora com a guitarra de Jr. Tostói. O resultado é uma singela e triste confissão de que a vida vale a pena, ainda que abandono e solidão sejam pedras a serem explodidas.

E assim segue Sweet Jardim. Sem mais nem por quê, as canções vão se abrindo diante do assombro do ouvinte. Tanta sutileza é de tirar o ar. Tamanha delicadeza faz tudo parar em busca de fôlego. As músicas vêm doces, suaves, melancólicas; vêm certeiras, placidamente diretas, quase estranhas… Tão belas.

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