O som instrumental levado às últimas conseqüências

files.php?file=1011 22 827426908 O som instrumental levado às últimas conseqüênciasA faixa que abre o CD À Deriva II (À Deriva Discos, patrocínio da TBE – Transmissões Brasileiras de Energia), é “Vendaval” (Guilherme Marques e Rui Barossi). O piano começa suave – logo se perceberá que este toque se repetirá feito mantra ao longo de toda a música –, e a ele vem se juntar a bateria, levada basicamente no prato; o sax interpreta a bela melodia; o baixo marca notas pontuais. Tudo mágico, singelo.
O que no início vinha carregado de comedimento, devagarzinho vai se fazendo mais e mais instigante. O sax, que antes soava classicamente, assume o solo e esgarça as notas. A essa altura o som é vibrante. Findo o solo do sax, ouve-se o contrabaixo chegando de mansinho, assumindo a sua vez de passar da brandura à aspereza, sem, entretanto, perder a veia musical. O piano continua em seu transe mântrico. A percussão, valendo-se de sons que lembram a palma de mão, ao qual vem se juntar o das peles da bateria, reforça o solo do baixo.
Bela interpretação de Guilherme Marques (bateria), Daniel Muller (piano e teclado Fender Rodhes), Rui Barossi (baixo acústico) e Beto Sporleder (saxes tenor e soprano, e flauta transversa), integrantes do À Deriva.
Os quatro músicos podem ser descritos como bons criadores jazzísticos; como admiráveis tocadores de seus instrumentos; ou ainda como fazedores de uma música instrumental brasileira levada às últimas conseqüências.
A diversidade das composições – o álbum traz 10 músicas inéditas criadas individualmente ou em parceria entre os do À Deriva –, lhes dá a oportunidade de demonstrar o quanto suas almas e mentes estão abertas ao imprevisto que leva à busca do inusual.
Muito embora a estrutura de cada arranjo tenha uma concepção parecida, é com esse ovo de Colombo que eles realizam o mais belo trabalho instrumental cabível em cada música que criam para tocar. As nuances de dinâmica vigoram a cada faixa. O fortíssimo e o pianíssimo se mesclam com a suavidade e a intensidade.
Nos ensaios é que eles descobrem como interpretar cada música. Juntos, decidem a melhor maneira de levá-la a público. Tudo dentro de critérios que privilegiam a total liberdade de expressar musicalmente a sonoridade de cada instrumento.
A música do À Deriva nasce do dom de seus integrantes e se multiplica na capacidade adquirida no estudo da música tocada ao longo de suas vidas de instrumentistas.
Em “Bolero Para Marcela” (Beto Sporleder), o piano, o baixo e a bateria tocada com vassourinhas antecipam a entrada do sax. A suavidade do sopro, somada às notas do piano e do contrabaixo, chama à beleza da melodia. E o que era reflexão se faz delirante, para logo retomar em pungente brandura. O baixo volta, o piano percute notas soltas. De tão integrados à música, o resultado é magia sonora. Voltam o sax e a bateria. Logo se juntam novamente a eles a bateria e o piano, e este assume a harmonia e sola, elevando-a. Fim.
Viva a música instrumental brasileira!

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