Tempo é precioso primeiro CD de Diogo Poças

Diogo Poças lançou Tempo (Warner), como se a necessidade de tecer loas a seu passado fosse vital. E, de fato, o resultado demonstra que o tributo era mais do que uma necessidade, era a demonstração de fé no presente. Diogo lida com sentimentos de forma aberta pela musicalidade que a ele coube para disseminar ainda mais.

A música lhe vai pelo corpo e dá à alma o impulso que carece para, ao cair, voltar a se erguer e ir. A música está misturada à vida e à sua história, necessitando de uma separação que lhes faça o bem de revelar uma à outra. Música composta como se parte da trilha sonora de sua cinematográfica biografia.

A voz do intérprete traduz o desembocar da água do rio no mar, quando os dois unidos ajuntam doce com salgado. Voz afinada e acima de tudo calorosa, grave, saída das entranhas para dar vez ao que lhe importa na vida. Cantor que se mostra abertamente através das palavras de canções que lhes demonstram o presente de seu tempo, e daquele passado entre a infância, a mocidade e a maturidade.

Música serve de confessionário a Diogo Poças. E é a expressão pela qual a emoção, sem que lágrimas sejam indispensáveis, demonstra quão intensa ela é para quem a canta.

Diogo, o compositor, segue o curso feito o do fiapo d’água próximo à nascente: ainda que o fluxo jorre moderadamente, pode-se antever que logo ele será caudaloso, feito de corredeiras e de desvios que forçam volteios para seguir rumo ao seu destino/mar.

A escolha do repertório se ergueu na melhor forma de refazer os caminhos já pisados junto com seus pais e irmãos. Para tocá-lo, acertado foi o convite para o pianista e arranjador Pepe Cisneiros ser o produtor. Coube a ele moldar a música que deu vez à arte de Diogo Poças. Seus arranjos têm a criatividade e o frescor de quem se esmerou em deixar brotar o sonho realizado por Diogo em seu preciso Tempo.

Quando a música é feita só por ele (duas) ou com parceiros, como seu pai Diogo, Jessé Santos (duas) e André Caccia Bava, ela é quase sempre confessional. Porém, mesmo as de outros compositores têm a ver com o universo familiar de Diogo.

(Como se não bastasse seu talento, o cara ainda é irmão da ótima cantora Céu, que com ele divide duas das canções. Meu Deus!)

São retratos do que vai na alma do cantor, revelados em Tempo, tanto as suas músicas inéditas quanto as clássicas “A Linha e o Linho”, pequena obra-prima de Gilberto Gil; “O Astronauta”, pueril bossa nova de Baden Powell e Vinícius de Moraes; o lindo fado “Saudades do Brasil em Portugal”, de autoria apenas de Vinícius; “Moonlight Serenade”, inesquecível sucesso de Glenn Miller e Mitchell Parish; “Maria Joana”, bom e pouco lembrado samba de Sidney Miller; e “Felicidade”, terna canção de Antonio Almeida e Braguinha.

Tudo modernamente tocado por músicos que acresceram ainda mais valor ao muito bem mixado e promissor CD de Diogo Poças, o que recria canções alheias com a mesma emoção com que faz as suas.

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