A multiplicidade da música de Kleber Albuquerque

Kleber Albuquerque & a Miniorkestra de Polkapunk lançaram Só o Amor Constrói (Sete Sóis), criando uma intensa miscelânea sonora e se desvendando músicos de desavergonhada qualidade.

Petulantes, não se furtaram a quebrar conceitos: brincaram com eles, tornando-os reféns de seus espíritos talentosos. Valendo-se de gêneros musicais diversos, fizeram da música válvula de escape para suas observações do dia a dia do mundo.

Bom compositor, Kleber escreveu letras para seus parceiros Adolar Marin, Élio Camalle, Zeca Baleiro, Danilo Moraes, Chico Cesar, Fred Martins e Rafael Altério. Antenado, reformulou um sucesso de Adriana Calcanhoto (“Esquadros”), dando-lhe novo sabor. Da algibeira, sacou poesias de Hilda Hilst e de Isac Ruiz, o que lhe permitiu criar melodias incontestes. Autossuficiente, criou sozinho cinco das quinze faixas do disco.

Cantor de bons recursos (seus graves vão tão bem quanto seus agudos), enseja a sensação de se ouvir algo distante do habitual. Interpretando, a sua personalidade musical vem plena. Entonações quase teatrais, por vezes, se contrapõem à aspereza; a emoção que lhe toma a garganta pode num segundo se refazer irônica ou singela.

Gustavo Souza (bateria), André Bedurê (baixo), Paulo Souza (serrote) e Stevan Sinkovitz, integrantes da Miniorkestra de Polkapunk, se desdobram em mil pedaços sonoros. Feito cobras-de-vidro, repartem-se para em seguida reaparecer em novos corpos e almas. O acordeonista Olívio Filho se integra a eles e colabora para a distinção da sonoridade que lhes sai das mãos.

Kleber Albuquerque é o camaleão que, antevendo predadores, reformula suas feições a cada instante. É o que segue instintos, abraçando-os; o que não teme o novo, (re)criando-o; o que não teme risco, correndo-os. Ele é o camaleão que, rápido como um corisco, muda de aparência; que, rente que nem pão quente, se adapta a novas circunstâncias.

Cantando e compondo, Kleber demonstra sabedoria ímpar. Mas, talvez, a que mais se sobressai decorre do fato de ele ter aberto mão de “Cala Frio”, de Kleber e Isac Ruiz, a canção mais bela do CD, entregando-a para Renato Braz cantar. Meu Deus! É de tirar o fôlego – aliás, há tempos uma canção não me comovia tanto. Relatando um ciclo de vida que não se fecha, envolto em atmosfera interiorana, Renato dá à melodia e aos versos um quê de fascinação.

Mas não só. “Futebol Para Principiantes” (Kleber) descreve com graça quase ingênua o que é um gol: “Numa casinha toda enfeitada/ Toda rendada de filó/ Quando a bolinha toda ouriçada chega lá dentro/ Todo mundo grita gol”.

Kléber e Adolar Marin compuseram “Seis Horas”, samba que remete a Monsueto. A lateria (bateria de lata) batuca. A guitarra pulsa com o serrote e com o acordeom, resultando (im)puro samba.

Kléber Albuquerque, econômico como haicai, certeiro como bote de cascavel, íntegro como rosto de mulher madura marcado pela vida, multiplica músicas com o dom de espalhar esperanças.

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