O realismo musical de Moisés Santana

Foi lá pelos idos de mil novecentos e noventa e poucos que ele veio descendo a ladeira. Vindo de Catu, na Bahia, Moisés trazia a matula abarrotada de incertas realidades. A música lhe fazia companhia – não seria agora que ela o deixaria.

Um som retado lhe afogueava as idéias. Um brilho nos olhos lhe iluminava a estrada. Mas o moço ia. A poeira voava solta. O mundão se alargava para nele caber passos ainda incertos. O céu relampejava, a nuvem disparava, o cabra tonteou… Eram as tais voltas do mundo dando o ar de sua graça.

São Paulo o acolheu. Mas Moisés queria porque queria desgrudar do já sabido, sem, contudo, perdê-lo de vista. Carecia fazer real a música que deveria estar emprenhada do que o emocionava.

E ela foi dando pinta de que logo viria à luz. Veio. E chegou seu primeiro CD, um filho. A ele, o pai deu seu próprio nome: Moisés Santana. Isso foi em 2002. Em 2005 nasceu Terra em Trânsito. Dois filhos daquele som que lhe afogueava as idéias, só que agora com cara, sangue, nervos, nome, sobrenome e alma.

E 2009 chegou com Verso Alegoria (Lua Music). A música agora flui diferente. Mais madura, decerto. Talvez um tanto ou quanto mais carregada de outros sotaques. Mas certamente mais Moisés, pois sua música se deixou invadir pela realidade do som de quem quer revirá-la pelo avesso.

As guitarras e os computadores se entendem harmoniosamente com a tradição dos acústicos. E os versos são secos: doloridos, alguns; ingênuos, outros. Todos intensos. O bandolim e o sossego, a sanfona e o resfolego, o pandeiro e o chamego, desfilando por entre músicas diversificadas.

(A canção se permite ser mais calorosa quando entoada com voz que a metamorfoseia em imagens propícias ao sonoro sonho realizado).

Das quinze faixas do CD, treze são de Moisés Santana. Já “Juízo Final” (Nelson Cavaquinho e Élcio Soares) pouco acrescenta ao trabalho, posto ser quase uma reedição, sem maior criatividade, de releituras deste samba clássico já feitas por Zizi Possi e Arnaldo Antunes. O que não acontece na regravação de “O Mistério do Samba” (Fred 04 e Marcelo Pianinho), plena de inventividade.

A voz de Moisés, por vezes, lembra a de Siba, ainda mais quando o Nordeste diz presente. A zabumba e o acordeom propiciam esta saudável relação. Wanderléa tem ótima participação – junto com Moisés, ela dá malícia e picardia ao mambo “Rosas no Caminho”. O belo samba em tom menor “Alegria Insiste”, com guitarra distorcida, baixo acústico e tamborim, nos remete à obra de Adoniran Barbosa. A bossa nova “Esse Momento”, com o violão de Chico Saraiva, o piano de Ruben Feffer e a gaita de Vitor Lopes, é outro bom momento. Arranjador e programador de suas realidades, o cara de Catu aprofundou tudo o que trouxe na matula.

Ao ouvir Verso Alegoria, todo tipo de reação cabe, menos a indiferença. Misturando chiclete com banana, tudo é samba e é rock; mesclando eletrônica com acústico, tudo é música, música de Moisés Santana.

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