As cores do canto de Maricenne Costa

Com mais de meio século de carreira, Maricenne Costa está de volta com o CD Bossa.SP (Lua Music). Ela, que sempre integrou a linha de frente das grandes cantoras de seu tempo, foi uma das primeiras a levar mundo afora o som requintado e intimista do gênero musical surgido no Brasil no final dos anos 1950. E não só, ouvir Maricenne Costa, hoje, é renovar um prazer que o tempo parecia ter devorado.

A delicadeza de sua voz está intacta; o suingue das suas divisões continua a falar mais alto; o repertório segue sendo seu ponto forte; o bom gosto ainda predomina em cada sílaba, em cada intenção, em cada nota que sai da garganta de Maricenne.

Se seus agudos já não são tão cristalinos, Bossa.SP apresenta uma cantora que, com sofrida emoção – a que só brota com a maturidade –, reflete, amplia e repete o brilho de outros e memoráveis tempos.

O repertório do álbum é responsável pela demonstração inequívoca de que Maricenne continua a ser uma intérprete privilegiada. Junto com Thiago Marques Luiz, ela produziu e concebeu a cara bossanovista do disco, e foi no olho da mosca ao selecionar as músicas que gravou.

Entre as treze faixas, destacam-se as belíssimas “Pra Não Ser mais Tristeza” (Théo de Barros); “Tristeza de Amar” (Luiz Roberto de Oliveira e Geraldo Vandré), com participação impecável de Alaide Costa e do contrabaixista Eric Budney; “Dá-me” (Adilson Godoy), que conta com o cello de Jonas Moncaio; “Mantiqueira” (Nelson Ayres); “Azul Contente” (Walter Santos e Tereza Souza), que traz Moisés Santana cantando com Maricenne; “Violão Gentil”, com participação dos autores Dino Galvão e Eduardo Gudin; “Ilusão à Toa” (Johnny Alf), com a gaita de Vitor Lopes, e “Lua Cheia” (Chico Buarque e Toquinho), que traz o bandolim de Milton de Mori.

Todas contando sempre, ora no violão, ora na guitarra, com o talento de Marcus Teixeira, ele que se esmerou nos arranjos e caprichou em solos, improvisos e em afiadas harmonias. Sua presença no CD é um achado.

(Mas, pena: deve-se registrar a não menção de que a capa de Bossa.SP é uma réplica da identidade criada pelo designer César Vilela para a gravadora Elenco, de Aloysio de Oliveira, em 1964: capas sempre em preto e branco, com bolas vermelhas. Um descuido tão descabido quanto evitável).

Maricenne Costa, símbolo de uma era que já vai longe, embora ainda presente no imaginário musical brasileiro, é cantora que colore o que canta. À imagem do que disse João Gilberto, numa noite em São Paulo, ao pianista Walter Wanderley, à própria Maricenne (ela revela este fato no encarte do CD) e a outros músicos que, embevecidos, o escutavam tocar inimagináveis acordes ao violão, enquanto os identificava com cores: “Este é azul, como o maestro [Lindolfo] Gaia; este é vermelho, como Luizinho Eça.”

E assim, Maricenne Costa novamente nos diz presente. Cantora de esplêndido talento, voz que personifica a bossa nova, ela ressurge como um arco-íris em meio à tempestade.

Related posts

Comentários

Send this to a friend