A obra de um grande compositor na voz de uma grande intérprete

Vânia Bastos selecionou doze músicas de Edu Lobo para gravar nabocadolobo (Lua Music) e assim demonstrar a riqueza desse artesão de harmonias que não crê em inspiração e acredita em dedicação, em entusiasmo na elaboração cotidiana de músicas para teatro, trilhas para cinema, temas para balé.

Mas para homenagear Eduardo de Góes Lobo há que ter muita confiança no taco e, principalmente, muita experiência. Vânia Bastos carrega no gogó esses atributos e inúmeros tantos outros.

Sua voz flui com a mesma facilidade com que a faca amolada corta a manteiga. A firmeza de sua afinação permite que percorra os mais complicados intervalos melódicos como se estivesse a imaginar apenas coisas prazerosas e delas se deliciasse com seu cantar. Vânia Bastos canta como se sorrisse.

Ela inicia o desfile de um repertório impecável. Logo de cara, “Casa Forte” (gravada por Edu no LP Cantiga de Longe, da Elenco/Philips, em 1970), um instrumental em que sobressaem os violões e o arranjo de Ronaldo Rayol – ele que é também o diretor musical do disco –, bem como a bateria, os efeitos de percussão e a tabla de Nahame Casseb. A voz de Vânia se soma aos instrumentos para brincar com a melodia e com a fortaleza da levada do tema.

A seguir, “No Cordão da Saideira”, gravado no LP Edu (Philips), em 1967. O arranjo se vale, dentre outros instrumentos, de cello (Regina Vasconcelos), piano (Hanilton Messias) e flauta (Ubaldo Versolato) para cadenciar o frevo que pulsa como se numa ladeira de Olinda.

O próprio Edu se junta a Vânia para juntos cantarem “Gingado Dobrado”, com letra de Cacaso. Bela lembrança.

Depois é a vez de “Glória”, segundo movimento da “Missa Breve”, gravada na íntegra – Kyrie, Glória, Incelensa (com Ruy Guerra) Oremus e Libera-nos – no LP Edu Lobo (Odeon), de 1973. Preciosidade.

Com Vinícius de Moraes, Edu compôs a clássica “Canção do Amanhecer”, e o acordeom (Guilherme Ribeiro) realça o seu lirismo.

Com robusta levada de tambores puxando para o maracatu, um cello dando ainda mais dramaticidade à melodia e a voz de Vânia dobrada, soando como num duo a entoar os versos de Paulo César Pinheiro, “Vento Forte” se destaca.

“O Circo Místico” (com Chico Buarque), com suas estupendas linhas melódica e harmônica, permite a Vânia, como sempre, um show de requinte interpretativo.

A pouco conhecida “Negro, Negro” (com Capinam) demonstra o esmero na busca pelo que de melhor Edu já criou. E conta com vocal feito por coro misto, um belo intermezzo de flauta e bom apoio de bateria e percussão.

A delicada “Tempo Presente” (com Joyce) se faz ainda mais bela com o som da guitarra. Supimpa.

“Upa, Neguinho” (com Gianfrancesco Guarnieri) vem animada com baixo, berimbau e percussões. Grande recordação.

“Meia-Noite” (com Chico Buarque) fecha o CD – “(…) As estrelas que não voltam nunca mais/ E um oceano de lavar as mãos” –, deixando à mostra um grande compositor e uma grande intérprete.

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