O primeiro CD de Verônica Ferriani é o cartão de visita de uma cantora de ótimos recursos

Cercada por músicos paulistanos capita­neados pelo experiente produtor BiD, a paulista de Ribeirão Preto Verônica Ferriani esbanja carisma. Sua voz é carinhosa e cada sílaba lhe sai da garganta impregnada de delicadeza.

A começar pela forma como vislumbrou este seu primeiro trabalho (produção independente), que traz na capa apenas seu nome ao lado de uma foto de seu rosto suave. O clima de “ao vivo” era a meta; gravar com todos os instrumentistas tocando juntos no estúdio, o sonho. Realizou. O calor do olhar cúmplice trocado entre cada um dos participantes dá ao CD ares de reunião na sala de casa – intimidade que permite empatia instantânea com o que se ouve.

Amparada por um repertório que está longe de ser banal, sua capacidade de cantar é posta à prova e se sai muito bem. Têm charme todas as notas que ela canta. Tudo o que escolheu para fazer é feito de um jeito particular, pleno de personalidade.

Para abrir, Verônica e BiD escolheram “Um Sorriso nos Lábios”, um samba daqueles que carrega a marca registrada de Luis Gonzaga Jr.: a ironia para disfarçar a dor do dia-a-dia. Para a sessão rítmica foi convocado um percussionista não-paulista, o craque Jaguara. A sanfona de Magoo cria uma atmosfera que amplifica a intenção que teve Gonzaguinha de buscar belezas inusitadas aonde só se costuma encontrar o de sempre. Bela performance.

De outro compositor consagrado, Paulinho da Viola, Verônica buscou um belo e pouco conhecido samba, “Perder e Ganhar”. Uma levada calcada nas congas de Vitor da Candelária e o dedilhado do bandolim pelas mãos de Felipe Pinaud dão ao samba ares de ainda mais leveza.

O arranjo de “Com Mais de 30” (Marcos e Paulo Sérgio Valle) dá uma bela arejada em seus versos, uma ode à juventude em detrimento aos “coroas” com mais de trinta anos, que retornam ágeis e suingados com Verônica.

Capaz de cantar qualquer estilo de música, ainda assim ela se destaca quando interpreta canções mais lentas, como “Bem Feito” (Rubem Nogueira e Paulo César Pinheiro). Bela melodia, harmonia bem estruturada e versos que dão a Verônica a chance de fazer com que sua voz nos venha ainda mais bonita e totalmente plena de emocionada sensualidade.

Assim é também quando ela canta o samba lento “Ahiê”. Com o DNA explícito do talentoso balanço de João Donato e versos de Paulinho Pinheiro, Ferriani se esbalda sobre a base que tem sanfona (Magoo), guitarra (Felipe Pinaud) e baixo acústico (Cabral), bem amparados pela percussão de Bruno Buarque e Vitor da Candelária.

Apesar de a produção musical pecar um pouco ao exagerar no uso do som meio anacrônico do órgão e de o coro masculino “pesar” quando somado à voz da cantora, o CD de Verônica Ferriani é o cartão de visita de uma cantora de ótimos recursos. Um trabalho feito por quem sabe bem o que quer da música e a ela dedica todos os cuidados possíveis que sua imaginação musical determina.

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