Mergulho pro fundo

A música vive hoje o momento das vozes femininas. A sensação que se tem é que a cada dia surge outra moça que canta tão bem quanto a que ouvimos há uma semana. As cantoras se valem de seu arsenal de talento e buscam ampliá-lo por meio da busca do lugar incomum, da trilha ainda a ser aberta. Com atilamento feminino, movidas a música, vão à vida. Cantam temores. Demonstram fortalezas… Mulheres músicas, dignas de suas vozes que hão de distingui-las uma das outras.

Escrevi este parágrafo ao comentar o CD anterior de Marianna Leporace – ela que agora lança Interior (Mills Records), de onde a água emerge como tema central, como um apelo para que ela conduza ao redescobrimento do desconhecido.

Assim, cada canção deixa no ar o cheiro da maresia, o frescor da brisa matutina. É como se cada verso captasse a tensão do vento terral que sopra suave nas noites quentes, trazendo fogo e paixão à vida e ao ventre.

No disco, Mariana é sereia perscrutando mistérios, e os instrumentistas, marinheiros enfeitiçados pelo seu canto, unidos na busca. Percebendo os rituais que se descortinam no horizonte, deixando-se banhar na espuma do fundo das marés, entregam-se à música na esperança de que respostas venham à tona.

Interior teve direção, produção musical, programações, edição e mixagem a cargo de Paulo Brandão e Emerson Mardhine, assim como deles é a maioria dos arranjos. Um bom trabalho que resulta em alto poder de empatia com quem o escuta.

“Ar e Vendaval” (Yuri Popoff e Alexandre Lemos). Os tambores ressoam nas mãos dos meninos d’A Parede. Alabês arretados trazem as cordas para a fuzarca. Em meio à folia, Mariana flui serena.

“Gandaia das Ondas” e “Pedra e Areia” (Lenine e Dudu Falcão). Unidas numa só faixa, têm belo arranjo vocal de Mauro Perelmann cantado pelo trio Folia de 3 (Mariana Leporace, Eliane Tassis e Cacala Carvalho).

“Carrossel” (Emerson Mardhine e Alexandre Lemos). Apenas uma clarineta (Andy Connell) e um violão (Emerson Mardhine) bastam para amplificar a quietude da melodia. Mariana desvela sua intenção em graves e agudos bem colocados.

“Água, Mãe e Água” (João Bosco). A percussão (Murilo O’Reilly) impacta. O baixo (Paulo Brandão) pontifica. Mariana faz duo com ela mesma, arrasa. Convidado a cantar, João Bosco demonstra suas qualidades de cantor diferenciado, brilha.

“Sereia e Marinheiro” (Emerson Mardhine e Etel Frota). Com arranjo de Marcos Alves, o acompanhamento do quarteto de violões Maogani dá força à melodia e sabor aos versos. Como uma irresistível sereia, Mariana canta suave.

“Perdido no Meio das Ondas” (Daniel Gonzaga). O sax (Andy Connell) reforça as notas. A percussão e as programações refletem o brilho das águas navegadas por Mariana e sua voz.

Ao final, “Vento Bravo”, clássico de Edu Lobo e Paulo César Pinheiro. Numa levada diferente da criada por Edu, o arranjo imprime ainda maior ansiedade à música. Ótimo!

Em Interior, Mariana usa a voz para navegar na ousadia de se revelar.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

PS. Lá se foi mais um colega. Descanse em paz, Wando.

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