Ofício de sambista

Em seu primeiro disco, Tania Malheiros canta músicas de qualidade, mostra-se uma intérprete de muita sensibilidade e voz saborosa. Niteroiense, jornalista, filha do saudoso cavaquinhista Mucio de Sá Malheiros, ela tem alma de sambista. Daí tratar o gênero com o respeito de quem nele reconhece a cara e o jeito carioca de ser e se manifestar. Portanto, é no samba que se ampara o repertório do CD Deixa eu me benzer (independente), para se fazer delicioso de se ouvir.

Nele, Tania contou com a rica participação do maestro, pianista e arranjador Gilson Peranzzetta. O engajamento se traduziu na direção musical do trabalho, fundamental para o resultado conquistado. Peranzzetta imprime seu toque de classe em tudo o que toca. Lá está ele brilhando nos arranjos para oito dos catorze sambas do álbum; os outros seis ficaram a cargo dos arranjos do violonista José Roberto Leão.

As bases são simples, sem excessos nem mirabolantes demonstrações de virtuosidade. Bases que permitem à harmonia e ao suingue se revelarem em cada um dos doze sambas inéditos e nos dois regravados. Assim, Tania se permite cantar como se estivesse numa roda de amigos no Candogueiro, em Niterói, ou no Cariocando, no Rio de Janeiro.

Sambas inéditos:

“Cristal Partido” (Adilson Gavião e Sereno) tem arranjo de Gilson Peranzzetta. A introdução conta com gaita (Rogério Siri), acompanhada do violão de seis (Rafael Lobo) e de sete (Fernando Brandão), mais a percussão de Felipe Tauil. Com o piano de Peranzzetta, Tania desliza com graça por entre os fraseados.

“Vagabundo” (Anselmo Ferraz e Carlos Gomes) tem arranjo de José Roberto Leão, que toca violões de seis e de sete cordas. Eles iniciam. Chega o canto. Tania vem maneira, pisando macio. O bandolim e o cavaco de Henrique Garcia somam sua inconfundível sonoridade às baixarias do sete. A percussão (Neném Chama e Binho) dita o samba.

“Quem Não Sabe Amar” (Gilson Peranzzetta e Paulo César Pinheiro), arranjo de Peranzzetta, tem piano e clarineta tocados por ele. O som grave da clarineta dá ao lento samba ainda mais beleza. Os versos do poeta, cantados por Tania, são como sempre belos.

“Palavras de Cal” (Tuninho Galante e Marceu Vieira) é um samba delicado. A flauta (Dudu Oliveira) toca a introdução do arranjo de Peranzzetta. Tania se desvela nos tristes versos do samba pungente, dos mais belos do CD.

“Primazia” (Wilson Moreira e Marcos Paiva) tem arranjo de José Roberto Leão, que também toca violões de seis e de sete cordas. E são eles que fazem a introdução. A percussão de Neném e Binho chamam o samba. O sete endoida em fraseados, enquanto Tania segue seu ofício de ser sambista.

Impressiona como ela o exerce: como se nada quisesse, mas tudo querendo, quebrando tudo. Fazendo do samba o seu dom. E seguindo dando um banho de tranquilidade e total ausência de afetação. Parecendo cantar para si, sem se importar com quem a ouve, mas a todos se achegando, dando-lhes arrepios de incontida satisfação.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

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