O sincretismo da fantasia musical de Felipe Radicetti

SagradoProfano (Mills Records) é o álbum que Felipe Radicetti lançou para deixar clara a sua capacidade autoral e instrumental. Este é o seu terceiro CD lançado após Homens Partidos (2000) e Superlisa, gravado com Clarisse Grova (2003).

Iniciada a carreira como organista dedicado à música clássica, Felipe logo teve a atenção despertada para outras vocações, e logo teatro, cinema, composição e publicidade passaram a ter sua atenção.

Carioca de personalidade inquieta, firme em sua atuação por melhores políticas para a área cultural/musical, Radicetti é músico versátil. Cantor e instrumentista interessado na sonoridade da música eletrônica, ele é também um arranjador que sabe muito bem dosar desde cordas sampleadas e bases eletrônicas com baixo sequenciado, até o piano acústico e uma sessão com dez berimbaus.

Para Felipe, o som de sua música e de suas letras (algumas dele, outras dos parceiros Cristina Saraiva, Juca Novaes, Arnoldo Medeiros, Felipe Cerquize e Marcelo Biar) soa feito tiro de fuzil que mira o alvo e manda bala.

Música que, como um anjo cego, aponta o olhar arrepiante àquele que, lá do alto da colina, solta chumbo pelas ventas. Sonoridade servida em cálices a despejar benefícios sobre o patíbulo onde urra o traidor; a nausear os ladrões dos tesouros que nos foram tão caro conquistar; a correr por atalhos, pisando em agudas pontas de ferro ali fincadas por qualquer ditadura que nunca foi nem será branda, será sempre medonha.

Pranto amargo e musical que lhe sai louco, desatinado, em calorosas súplicas, feito as de Patativa do Assaré, que versejava cantos ao luar de marfim do sertão, assim é a música de Felipe Radicetti. Nela, seus arcanjos nos arrepiam. A eles o músico dedica cantos e poemas envoltos em mil malícias. E, para se redimir da possível heresia, lança aos céus a sua apaixonada ternura presa na ponta da seta a ser cravada na alma dos insensíveis.

E é como se a musica que sai de sua garganta e da de sua filha Luana, ou da garganta do coro, Folia de 3 (Cacala Carvalho, Eliane Tassis e Mariana Leporace), ou de Clarisse Grova, Diana Goulart, Chico Adnet e Raphael Bessa, ou da garganta dos que solam, Mariana Leporace, Juliana Rubim, Ladston do Nascimento e Trovadores Urbanos (Maida Novaes, Valéria Caram, Juca Novaes e Edu Santana), gritasse: carrasco, assustas-me com teus maus presságios. Por medo de ti me fiz andarilho em busca de quem me acolha e a minhas dúvidas. Desamor é o que dedico a ti.

SagradoProfano tem 13 faixas nas quais se ouve o sincretismo musical de quem tem a alma aberta ao presente e refaz o passado no futuro que chegou hoje. Treze composições que têm em “Canto de Roda da Pedra do Sol” (Felipe Radicetti) a sua síntese. Arranjos modernos, mixagem preciosa, cheia de ricos detalhes, e canções inspiradas, embaladas por um belíssimo projeto gráfico, fazem desta fantasia uma rica mostra autoral do que é a vida para Luis Felipe Radicetti Pereira.

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