A poesia de Cacaso na voz de Rosa Emília

Álbum de Retratos (Lua Music), CD lançado por Rosa Emília para reverenciar a obra do poeta Antonio Carlos de Brito, o saudoso Cacaso (1944-1987), é como o diário de uma geração que sentiu na pele o medo da morte. Morte vinda do arbítrio que a muitos impôs prisões, torturas e desaparecimentos. Assassinatos chorados sem que os corpos pudessem ser resgatados, mesmo que mutilados, para as necessárias e devidas despedidas. Restaram dor e saudade imensas.

Diário no qual anotamos nossas vivências e que só ao relê-lo percebemos como fomos muito mais felizes do que as dores do dia-a-dia nos permitiram ver. Ao abri-lo, tempos depois, com suas páginas já encardidas pelo tempo que passa e ali deixa suas marcas cravadas como cicatrizes a esconder fundas feridas, entristece-nos a dúvida de que poderiam ter sido mais leves as escolhas da trilha a seguir em cada encruzilhada surgida à frente.

Letrista, poeta e escritor, Cacaso dedicou-se, em plena ditadura, a criar belezas enquanto imperavam a brutalidade e a truculência. Muitos intérpretes lhe deram voz: Elis Regina, Milton Nascimento, Maria Bethânia, Simone e Fafá de Belém, dentre outros. Era um tempo mimeografado em vermelho e impresso em papel de chumbo; o diário de uma dor que vem aos olhos que choram à visão do retrato antigo preso à parede ou posto na velha moldura sobre a mesa de canto.

Baiana radicada na Itália, a soteropolitana Rosa Emília agrupou neste seu sexto disco alguns dos parceiros que ajudaram Cacaso a criar uma obra poética substancial, da qual a música brasileira se vale para ser ainda mais plural. Álbum em que estão Cacaso e alguns de seus “cúmplices”: Novelli, em “Triste Baía de Guanabara”; Olívia Byington, em “Clarão”; Sueli Costa, em “Álbum de Retratos”, “Eu Te Amo”, “Agradecer” e “Dona Doninha”; Filó Machado, em “Perfume de Cebola”; Nando Carneiro, em “Cavalo Marinho”; Nelson Ângelo, em “Dito e Feito” e “Deixa o Barraco Rolar”; Sérgio Santos, em “Fazendeiro do Mar”; Joyce, em “Beira Rio”; e Zé Renato, em “Lua de Vintém”.

(Não há, porém, nenhuma das parcerias de Cacaso com Mauricio Tapajós nem com Edu Lobo. Um desperdício).

Mas, para compensar, cada faixa traz o impulso amoroso dos que emprestaram música aos versos de Cacaso. E assim, com voz calorosa e plena de emoção, que lhe permite demonstrar rara personalidade musical, Rosa ajuntou fragmentos da vida que o poeta e ativista literário transformou em lírica magia libertária.

Com acompanhamentos marcados pela sutil e clara economia de sons instrumentais, embora de muito gosto, bela maneira de privilegiar as palavras e assim melhor render tributo ao homenageado, Álbum de Retratos é obra de referência que o amor de Rosa Emília por Cacaso oferece a quem desejar conhecer melhor o que este grande poeta pensou e deu à vida: “Lá vou eu/ Outra vez me enganar/ Como quem principia/ Tentando não lembrar antigos fatos/ Fecho o álbum de retratos/ E vou te procurar…”

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