Quatro jovens criadores musicais que chegam para ficar

Cidade das Noites (independente) junta a cantora Anabela, os compositores Edu de Maria e Renato Martins e o poeta Roberto Didio. Anabela e Edu, amantes do samba tradicional, vêm de Campinas, e Renato e Roberto fazem parte do Terreiro Grande, grupo paulistano que, na companhia de Cristina Buarque, ela que é para o samba uma mãe-do-ouro – ente fantástico que, reza a superstição popular, guarda as minas de ouro –, lançou o excelente Cristina Buarque e Terreiro Grande – Ao vivo.

Agora os quatro chegam num álbum pleno de homenagens prestadas através de músicas inéditas e inspiradas. Com uma unidade pouco vista em primeiros lançamentos, suas canções, sambas na maioria, reverenciam desde Cristina Buarque e Amélia Rabello até Rosa de Luxemburgo e Carlos Marighella.

À Cristina, a homenagem vem em dois momentos: “Cemitério dos Pássaros” (Renato Martins e Roberto Didio), cujos versos cantados pela homenageada remetem à ilha de Paquetá, pequeno paraíso (ainda será?) encravado na baía de Guanabara; e “Samba da Escuridão” (Renato Martins, Tuco e Roberto Didio), pequena obra-prima que permite a Cristina, junto a Anabela, cantar emocionadamente belos versos emoldurados por harmonia criada em tom menor, traduzidos em linda melodia. O grande momento do CD.

A Marighella, fundador da ALN (Ação Libertadora Nacional), morto pelas forças de repressão, em São Paulo, no dia 4 de novembro de 1969, Renato Martins e Roberto Didio dedicaram a faixa que encerra o CD, “Nome, Sobrenome e Codinome” (título que no encarte se sobrepõe a uma foto da lápide do “inimigo número 1 da ditadura”, onde se lê: “Não tive tempo para ter medo”), um samba que durante seus mais de sete minutos de duração nomeia muitos dos que, como Marighella, pegaram em armas contra a ditadura militar.

Mas a maior homenageada do disco é, sem dúvida, Anabela. Seus companheiros criaram sambas, canções e valsas que soam como tributo àquela que, com voz doce e afinada, decidida e emocionada, lhes serve de grande intérprete. Ao fazerem canções impregnadas de tradição, as melodias e as harmonias a cargo de Edu de Maria (também violão e arranjos) e Renato Martins (também cavaquinho e arranjos) surpreendem pela contemporaneidade, combinação que dá ao trabalho um som de benfazeja inovação. Os versos criados por Roberto Didio são belos, como ardorosas são suas emoções afloradas em rimas bem expressas em palavras que fogem da mesmice.

Os arranjos, plenos de violões de seis e sete cordas, flugelhorn, clarone, flautas, cavaquinho, clarinete, violinos, viola, cello, tamborim, surdo, pandeiro, piano, sanfona e bandolim, criam atmosfera que brinda o futuro tirando o chapéu ao passado. Capacidade atestada pelo som amador – no sentido que expressa mais os que amam do que os iniciantes – presente em cada uma das 13 faixas deste ótimo Cidade das Noites. Trabalho em que cada música fala por si e, ao mesmo tempo, por todos os seus quatro jovens criadores.

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