As tigresas de Livingston

liminhas As tigresas de LivingstonLá em São Raimundo, onde vivi a mais feliz das infâncias, futebol era coisa de menino.
Menina brincava de casinha, boneca e outras coisas.
A elas não era concedida a alegria de correr atrás de uma bola em um campinho de terra batida e viver a experiência de jogar uma partida de futebol.
Eu não sabia que havia uma lei federal, promulgada em 1941, que proibia as brasileiras de jogar bola, ainda que como forma de lazer.
A lei enfatizava que as mulheres estavam proibidas de praticar qualquer esporte ‘incompatível’ com a natureza feminina.
Machismo e atraso, que, felizmente, ficaram para trás.
Em 1979 essa aberração foi banida da legislação, e o país pôde dar ao mundo uma atleta genial chamada Marta, aclamada e coroada como a rainha dos gramados, a versão feminina de Pelé.
O resto é história.
Quando cheguei aos Estados Unidos, em 1984, estranhei que o futebol era mais popular entre as mulheres.
Achava esquisito ver na televisão aquelas moças correndo atrás de uma bola. Com o passar do tempos, passei a assisti-las e admirá-las.
Minha Isabella nasceria em 2001 e Clarice em 2003. Ambas jogariam bola.
Livingston, a cidade que escolhemos para elas crescerem, possui um dos melhores sistemas de educação pública do Estado e participa das competições em todas as modalidades.
São conhecidas como as Tigresas, numa liga que tem as Leoas, as Panteras e outras felinas.
Tudo é muito organizado, desde os uniformes até os  gramados, bem cuidados, bem diferentes daqueles que pisei em meus tempos de criança.
Durante alguns anos, os meus domingos por aqui eram feitos de levá-las para disputar jogos em toda a região. E pouco mais.
Acordávamos por volta das seis, elas se vestiam, tomavam café e iam dormindo dentro do carro até o local da partida.
Com a proximidade do inverno, era um sacrifício tentar driblar o frio, tantas vezes abaixo de zero.
De início, tímido, acabei me tornando uma espécie de “cheerleader” das “tigresas”, o que muito as envergonhava, admito sem me arrepender.
Em uma partida disputada em Montclair, por exemplo, fui expulso por cobrar do árbitro – visivelmente de ressaca naquela manhã, ele, não eu  -, proteção para as meninas de Livingston.
Elas estavam levando botinadas assassinas de adversárias muito maiores, e ele parecia ter engolido o apito.
Outros pais aderiram e deu a maior confusão. A partida foi interrompida antes da hora e quase chamaram a polícia.
Na manhã do dia seguinte eu receberia um email oficial da liga, informando que estava “suspenso” por duas rodadas. E ainda levei uma bronca antológica das meninas.
Levar Bebel e Cissa aos jogos de futebol foi, para mim, um grande (e indizível) prazer.
Mas elas agora cresceram e estão prestes a alçar voo em direção ao futuro, no processo de escolha da cidade e universidade onde irão viver e estudar já a partir do ano que vem.
É assim que eu descubro que já não vivo a minha vida.
É como se eu tivesse desistido de mim e passado a caminhar debaixo dos sapatos delas.
Abre-se um novo capítulo, e, daqueles dias felizes, ficaram apenas algumas coisas.
Ficaram as lembranças dos domingos espremidos entre abril e novembro.
Os uniformes alviverdes – em que já não cabem – com o sobrenome que eu lhes dei, às costas.
Dois pares de chuteiras amarelas e uma surrada bola de futebol esquecidas no fundo da garagem.
E a implacável certeza de que a vida está passando depressa demais.

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