Calipígio

buzanfa 002 CalipígioEle é portador – segundo suas próprias palavras – de 26 doenças, todas elas mortais.
Bebe, fuma, se excede, mas as 26 moléstias só o incomodam quando a mulher aparece com algum tipo de restrição:
– Não posso ser contrariado. Lembre-se: sou um homem valetudinário!
Valetudinário?
Corri para o dicionário – outra de suas muitas manias.

Ele adora descobrir palavras esdrúxulas nos Aurélios e Houaiss desta vida – e nada encontrei.
Apelei a ele, e aprendi que um indivíduo valetudinário é um sujeito doente.
– Olha que moça calipígia, ele diz, apontando para a voluptuosa morena que atravessa a rua.
Nova consulta ao dicionário e descobri que calipígio é aquele ou aquela que possui belas nádegas.
Todas as manhãs, quando ele se levanta com seu pijama de aposentado, calça as pantufas e vai ao banheiro, quem estiver do lado de fora, saberá qual dos Argemiros sairá por aquela porta.
Existem dois Argemiros: o sorumbático e o ditoso.
Querem saber o que quer dizer isto?
Façam como eu, peguntem ao Google.
O Argemiro feliz canta trechos de ópera enquanto se barbeia ou lê, sentado no trono.
Ele sabe tudo de ópera, canta árias inteiras, e parece se alimentar de réquiens e Caruso.

Se não tivesse nascido Enrico Caruso e italiano, o celebrado artista teria nascido Argemiro e brasileiro.
O outro Argemiro, aquele que parece ter grudado chiclete na cruz de Cristo em seus piores dias, fica mudo durante o banho e dele nada se escuta, quando sai de lá.
Nessa segunda versão, os olhos cinzentos o acompanham até a mesa do café.
Diante das frutas – que faz questão de que estejam descascadas e cortadas em tamanhos uniformes – , sentencia:
“Sinto-me plúmbeo. Hoje estou macambúzio. Maldita paúra. Indizível banzo. Sou um homem embezerrado e valetudinário”.
Qualquer das expressões denotam que ele não acordou do lado certo da cama.
Saudade de algo ou alguém, ou a simples sensação de frio podem mudar seu estado de espírito por períodos que podem durar até uma semana.
Gosta de bons vinhos. Bom champagne. Bom malte escocês.
À mesa não possui o mesmo requinte.
Se pudesse, comeria bife com batata frita em todas as refeições.
Já o vi trocar uma ida ao melhor restaurante francês por um pão com ovo cozido. E não me pareceu arrependido.
Argemiro é assim, um poço de contradições. E manias.
Pena vê-lo agonizar às vésperas de uma viagem. Pesa a bagagem duzentas vezes. Trezentas, se achar necessário.
Tem paranóia com agentes alfandegários e entra em pânico diante da mera menção de que uma de suas malas possa ser aberta na saída ou na chegada.
Não que ele leve nelas algum objeto ou produto proibido, mas a possibilidade de ver espalhadas pela bancada de revista as suas cuecas e meias – que ele enrola e acondiciona artesanalmente – , causa-lhe fobias, mal estar, uma quase demência.
Toda vez que sai para comprar roupas, leva para a loja ou boutique uma fita métrica e mede, peça por peça, uma por uma, antes de experimentá-las.
Ele conhece suas medidas antes, durante e depois das refeições.
Outra mania esquisita é a de colecionar caixinhas. Tem milhares delas.
Quadradas, ovais, triangulares, brancas, pretas, multicolores, grandes, pequenas, fundas, rasas…

Ele precisaria de um novo cômodo da casa só para guardar sua coleção. Na falta de ter o que armazenar dentro delas, guarda caixinha dentro de caixinha, e passa dias inteiros organizando o acervo.
Usuário de tantos remédios, pouco faz para obedecer o tratamento médico acompanhado de dieta.
Já enfartou duas vezes. Sofre de diabetes. Tem pressão alta.
E torce para o Coritiba Football Club.
Informado pelo médico de que deveria abrir mão de alguns pequenos prazeres, caso quisesse viver mais, retrucou ao doutor que havia acabado de escolher, naquele instante, o epígrafe que iria adornar sua lápide:
– Argemiro parou de fumar!
E é isto mesmo.
Argemiro, nosso incorrigível Argemiro, só vai para de fumar ou beber (ou de fazer qualquer outra coisa que lhe apeteça ou dê prazer), no dia em que pedir a conta e partir desta para uma pior.

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