Carta para a Marina

Riberto marina1 Carta para a Marina‘Marina, morena, menina, você me pintou.’
E foi a única pessoa a fazê-lo nestes meus 56 anos de vida.
Eu conhecia algumas das suas telas, mas só fomos apresentados na casa de Solange e Tadeu Martins, em BH, quase duas décadas atrás.
Fiquei encantado por um quadro seu que adornava a sala de nossos amigos: três personagens sem olhos, vestidos para uma festa de congado no Vale do Jequitinhonha.
As cores daquelas fitas encheram meu coração. Achei tudo tão bonito. Principalmente a pessoa especial que você revelaria ser.
Saí daquela noite levando o quadro debaixo do braço, presente generoso dos donos da casa com seu consentimento e algum constrangimento meu.
Eu adquiriria mais algumas obras suas.
Seria presenteado com outras, tão generoso que era o seu coração.
Nas paredes da casa de meus pais (e também aqui em New Jersey), você reina soberana, ao lado de Poty Lazzarotto, outro artista que tanto admiro.
Voltaríamos a nos ver muitas vezes, sempre que nos reuníamos para celebrar a amizade, uma das mais belas formas de amor que existem.
Eu ia para o fogão, alguém cantava e tocava violão.
Passávamos horas nessa celebração.
E eu contava nos dedos os dias até que pudesse retornar ao Brasil para nos juntarmos outra vez.
Você fez a pintura da capa de Meninos de São Raimundo, livro que escrevi em parceria com o poeta Bispo Filho, mas foi preterida quando o livro já estava para ser impresso.
Na pintura você retratava, ao fundo, os autores quando criança, agarrados aos pais; e, em primeiro plano, já adultos, escancarados em seus rosários de falhanços e dúvidas.
Tratava-se de uma imagem muito forte e eu não sei explicar o motivo por trás de nossa decisão de não usá-la na capa do livro.
Havia ali alguma dor, alguma fratura exposta…
Uma parte de nós – os autores – não queria revelá-las ao mundo, senão pelas entrelinhas dos textos escolhidos para a publicação.
Diferentemente do que era comum em suas pinturas daquele período – que traziam sempre pessoas sem olhos -, Bispo Filho e eu fomos retratados com absoluta fidelidade.
Talvez estivesse explicitada em nosso olhar a razão da escolha, no minuto derradeiro, quando tudo já parecia líquido e certo.
Tentei adquirir a obra, mas você já havia pintado outra coisa por cima da tela.
Não questionei.
Não houve – de sua parte – nenhuma animosidade.
Nenhum senão.
Entendi que, escondido em seu gesto, a tela trazia algo que ia além do que os olhos viam; segredos e mistérios diluídos nas águas do rio que molhou os pés de nossa infância.
Algum tempo depois, eu receberia de você um presente que adorna a sala da casa de minha mãe. Aquele retrato de cor amarela está pendurado ao lado do rosto de meu pai, outro presente seu.
Papai adorava você.
Minha mãe também.
Você se tornou uma presença constante e obrigatória em nossa casa, todas as vezes que eu ia a Minas Gerais.
Acompanhei diferentes fases de sua arte. Dos personagens sem olhos às meninas e meninos envoltos na leveza de um vento ligeiro. Depois, a fase dos retratos, em que vários amigos seus ficaram imortalizados em delicadeza acrílica.
Recentemente, você começou a pintar pratos e canecas de rara beleza, e eu fiquei de passar por sua casa para adquirir alguns.
Não tivemos tempo, Marina.
A notícia de sua morte passou por cima de mim com a violência de um rolo compressor. Saber que, quando for a BH, já não poderei lhe dar um abraço causa-me enorme confusão.
Vou ter que me contentar com sua lembrança, as cores felizes misturadas em suas obras espalhadas pelas paredes da casa onde já não vive meu pai.
Você, que eu sempre dizia pintar com as mãos de Deus, está agora pertinho do dono delas.
Descanse em paz nos braços d’Ele.

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