Cenas de aeroporto

aeroporto Cenas de aeroportoEu gosto dos aeroportos, mas tenho pavor de voar.

Fico muito religioso quando tenho que entrar em um avião. Rezo, peço proteção e, para garantir, tomo um comprimidinho com uma dose de uísque para relaxar.

Quase nunca funciona, principalmente nas nove horas e meia que separam Nova York de São Paulo, mas dá aquela zonzeirinha boa.

Eu dizia que gosto dos aeroportos. Gosto muito.

Se eu estou partindo, esforço-me para chegar mais cedo e beber um chope enquanto fico observando as pessoas, tentando adivinhar-lhes a parada final.

Aquela moça bonita está indo para Havana cumprir o seu destino. Um amor espera por ela no aeroporto José Martí.

O homem magro vai para Amsterdã. Vai a negócios.

Já aquela família – casal e três filhos pré-adolescentes – está indo à Disney pedir a bênção ao camundongo Mickey.

A voz vinda do alto-falante anuncia chegadas e partidas que jamais serão minhas, mas é música para todos os ouvidos:

Bruxelas, Roma, Tóquio, Montevidéu, Londres e Moscou são poemas recitados de uma forma tão bonita, que alegra o espírito e acende a vontade de, um dia, conhecer todos aqueles lugares.

Indo ou vindo, eu gosto dos abraços de aeroporto.

Dos sorrisos na chegada.

E da emoção nas despedidas, as mãos acenando até breves.

Sei que, às vezes, são acenos de adeus, definitivos, vidas que se desencontram para sempre.

Aprecio o barulho das rodinhas das malas deslizando pelo saguão. Elas já estão em viagem.

Na chegada ao destino, é sempre deliciosa a sensação de esticar as pernas e colocar os pés em terra firme. Sinto um alívio muito grande, como se tivesse acabado de escapar de uma tragédia.

Antes da partida, encheu-me os olhos a visão das equipes de tripulação, as suaves aeromoças com o cabelo amarrado, perfumadas, maquiadas, com as suas bagagens de mão.

E os comandantes, com os quepes debaixo do braço, as túnicas impecáveis, aquele ar de que possuem superpoderes.

Penso sempre no que vai dentro da cabeça daqueles filhos de Ícaro.

Serão homens de carne e osso, como eu?

Terão bebido como eu?

Tomam antidepressivos?

Brigaram com as esposas e namoradas?

Gozam de perfeita saúde para o desempenho da função?

Estarão em paz?

Afinal, a vida de centenas de mortais estará em suas mãos enquanto durar esta viagem, que pode ter como destino final o inferno ou o paraíso.

Sobre o autor

Roberto Lima nasceu em Pedra Corrida, Minas Gerais e vive nos Estados Unidos desde 1984. Jornalista e escritor, publicou Colosso Ciclone e Tango Fantasma.

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