Conflitos sonoros

conflito sonoro roberto Conflitos sonorosTenho sofrido muito com o gosto musical de minha filha caçula, a Clarice.

Mal chega da escola, ela liga o aparelho de som no volume mais alto e sai por essas plataformas digitais que desconheço, garimpando coisas que ferem e ofendem a complacência de um pai.

O som de Clarice arde em meus tímpanos. Qualquer dia desses sangrarei.

As letras são manifestos violentos, chulos e, não raro, aviltam a figura da mulher. Eu sou de um tempo em que a mulher era a musa da canção.

Sim, eu sou um homem antigo. O espelho e a carteira de identidade não mentem.

Mas tento ser moderninho, paciente, tolerante, para evitar os conflitos que tive com meu pai, naquilo que eu crescia, já que ele não gostava do que eu escutava, e vice-versa.

 

Ele reclamava dos meus Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso – obrigatórios – e dizia que Fagner cantava dentro de um banheiro, fazendo necessidades.

Eu, por minha vez, tinha profunda dificuldade de escutar, por tabela, os romantismos de Altemar Dutra, o vozeirão de Nélson Gonçalves e aquele que eu considerava o pior de todos, Agnaldo Timóteo.

Quando papai chegava do trabalho e ligava a vitrola, eu saía para a rua em busca de um silêncio qualquer. Não vêm de hoje os conflitos de gerações.

 

Confesso que tenho saudades de manusear um LP, ritual que nenhuma de minhas filhas teve a oportunidade de experimentar. Eu passava horas a fio destrinchando os encartes, lendo as letras, descobrindo quem tocava o quê. Com o tempo, viriam as fitas cassetes e os CDs, que também foram ficando obsoletos e já estão em via de extinção.

Desapareceram as lojas de discos, e a canção de agora desembarca nos computadores e telefones celulares com a nitidez de um quasar. Há pouco tempo, eu fui apresentado ao Spotfy, que toca músicas intermitentemente, 24 horas por dia. O artista favorito ficou a um clique. Passei duas horas escutando Sinatra, enquanto digitava um texto para o jornal.

 

Mas eu falava do gosto musical de Clarice, algo que não consigo compreender.

Ela gosta de Hip hop, R&B (seja lá isso o que for), Rap e congêneres, saídos do cotidiano dos jovens negros e latinos do país em que ela nasceu, um universo completamente diferente do subúrbio engomadinho em que ela sempre viveu.

Daí fico questionando, tentando traçar um paralelo da trajetória da música através dos tempos.

Será que Jayzee é o Ray Charles desta geração?

E o desparafusado Kanye West um novo Stevie Wonder?

 

A música negra norte-americana, que cresci escutando no interior do Brasil, tinha o swing de James Brown, a pauleira de Earth, Wind and Fire, o blues enraizado de B.B. King, as nuances gospels de Aretha Franklin e Sarah Vaughan, a sensualidade e o engajamento de Marvin Gaye, além dos acordes precisos de Miles e Charlie Bird.

Eram composições melodiosas, eximiamente tocadas por músicos de verdade, e não isto que os profissionais invisíveis de agora fazem, amalgamados no interior de um computador, enquanto professam a novíssima canção.

 

No domingo passado, eu estava visitando o túmulo de meu pai em um cemitério de Belo Horizonte. Alan Costa, amigo querido, passou por lá para entregar um abraço. Mal ele abriu a porta do carro, o locutor do rádio anunciou que aquela era a hora da saudade. Ato contínuo, uma voz conhecida entrou em meus ouvidos.

Ali, na via que dava acesso ao jazigo de número 679, uma das canções de que papai mais gostou em vida encheu o ar. No verso final da canção, Agnaldo Timóteo abriu o peito, expondo a ferida aberta do meu coração:

 

“Ai, que vontade de gritar

Seu nome bem alto no infinito

Dizer que o meu amor é grande

Bem maior do que meu próprio grito

Mas só falo bem baixinho

E não conto pra ninguém

Pra ninguém saber seu nome

Eu grito só meu bem”.

 

Em algum lugar, pertinho dali, é bem provável que Seu Antônio Lima tenha sorrido, enquanto o filho saudoso caía no choro, balbuciando junto com o cantor que tanto detestou na adolescência o doloroso final da música.

E eu gritei, bem baixinho, as cinco palavras finais da canção.

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