Das estranhas invenções do homem

roberto Das estranhas invenções do homem

(Para o João)

 

“A maioria dos homens vive vidas de silencioso desespero” 

― Henry Thoreau

 

As mãos espalmadas escondendo o rosto é o gesto universal dos que sentem vergonha, dos que temem a derrota e não encontram forças para virar o placar adverso antes que se apaguem as luzes.

É o medo do fracasso, que se aproxima rapidamente como uma matilha faminta diante de um corpo ferido.

Cruel é o homem, lobo de si, com suas matilhas vorazes, rondando em círculos numa coreografia invísivel, tendo ao centro a indefesa presa, ele mesmo.

O homem tem fome de homem.

Ele tem sede do próprio sangue.

O homem, com sua cartilha de metas inatingíveis e suas missões kamikazes.

O criador da ilusão do sucesso, seus truques sujos e atalhos ilícitos.

O inventor do fracasso e do desespero.

O criador da culpa.

O tecelão da corda.

O criador do laço.

Ferreiro que deu forma ao cano gélido dos revólveres.

O mixologista dos coquetéis letais .

Artesão da vergonha e seu gesto universal, esse das mãos espalmadas cobrindo a face.

Como o faz o goleiro, desesperado na hora do gol.

Do zagueiro que jogou para o fundo das próprias redes a bola branca, fugaz pomba da felicidade.

Do adolescente que não conseguiu caber em um mundo cada vez mais atrofiado e em que a barra de exigências está cada vez mais alta.

Do adulto soterrado por notas promissórias.

Do pai que não consegue colocar o pão sobre a mesa.

Da mãe que não se perdoa pelos falhanços dos filhos e os assume como se fossem seus.

É quando se escuta o barulho ensurdecedor do fracasso.

E que som seria este?

Que estranho barulho teria o desespero causado pela sensação do fracasso?

O de uma fruta que passou do ponto de maturação e se espatifou contra o chão?

O canto esganiçado de uma gralha?

O apito de um cargueiro se afastando no cais?

Ou o rufar de um trovão?

Ele pode ser estridentemente silencioso, mas pode soar como um trem carregado de tesouros minerais, deslizando sobre os trilhos em direção a um porto distante.

Não raro, aparece o paliativo da corda e seu convidativo laço.

Não incomum, o fundo do poço, que esconde debaixo dos pés de quem chega a ele, um traiçoeiro alçapão.

Não corriqueiro, o cano frio entre os lábios.

O dedo no gatilho.

A coragem extrema, que não é o avesso da covardia.

O clique.

O bang.

A poça gelatinosa.

E o fim.

Não, não deveria ser o fim.

Mas a cortina do espetáculo barato da vida se fecha mesmo assim.

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