Das papoulas de Kandahar

papula Das papoulas de KandaharComo na letra de Trocando em Miúdos (Chico Buarque), nós caímos na armadilha da mesquinhez e passamos a não abrir mão do disco de Pixinguinha e a exigir a devolução do Neruda que o outro não leu.

E o que era “meu bem” passou a ser “meus bens”.

Até aquela canção que fazia o coração bater mais rápido e arrepiava a pele , já não toca mais no rádio.

Ela já não lhe “toca”.

E nunca mais tocará.

E se tocar, por engano, dedos ágeis mudarão a estação.

Nossos ouvidos ficaram  moucos, pois o desamor provoca a surdez e a cegueira, e extermina sumariamente todos os sentidos que despertam a felicidade nos seres humanos.

O que resta depois do “não dá mais” é esta mistura de desassossego e paz.

Paz, porque já não temos mais que conviver com os defeitos e imperfeições  do outro.

Desassossego, pela falta das essenciais virtudes que o outro tem e que nos completaram até aqui.

Ou, porque o amor (ou o seu fim) é como um leito de rio e sua relação essencial entre terra e água, com sua urgência de completude.

É assim que ele desassossega o homem e a mulher.

E quando o sentimento de pesar alia-se ao desmedido medir   – custo/benefício – de emoções e afetos, posicionamentos e coisas materiais, tudo se enfeia.

É neste momento que descobrimos o quanto é mesquinha a alma do outro.

É quando nos sentimos tão injustiçados, que nem percebemos que o outro descobriu exatamente o mesmo a nosso respeito.

Depois que baixa a poeira e faz aquele silêncio pós grande explosão – e, imagine-se aqui um cogumelo atômico – dentro de nós cantará um grilo, uma cigarra, ou uma gralha se esganando na distância.

E tudo doerá.

Descobriremos a nossa vocação para Hiroshima e tudo que nos diz respeito ficará contaminado para sempre.

Como ficaram os pelicanos do Golfo do México e as papoulas de Kandahar.

E é assim, maculados, que permaneceremos juntos às uvas de Chernobyl e as inocências roubadas de Columbine, até o fim.

As linhas do destino na palma da mão de ambos se transformarão em cicatrizes invisíveis, que o olho nu da cigana já não conseguirá ler.

O futuro ruiu.

Tudo erodiu.

Já foi.

Mas restaram estes botões de rosa nas mãos sujas de um menino sobrevivente do massacre da Candelária.

Ficaram estes ratos roendo por dentro, como se tivéssemos uma úlcera na alma.

A partir de agora passou a ser cada um por si.

E o diabo por todos.

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