De frio e de neve

pazudo De frio e de neveO publicitário Lineu Vitali telefona reclamando do frio. Ele foi dar o passeio de motocicleta das manhãs de domingo e desanimou. Voltou para a casa, inconsolável, murcho.

Esse Lineu, que gosta de voar de asa-delta, saltar de pára-quedas, fazer rapel, pilotar lanchas de alta velocidade e já deve até ter se jogado de um bungee jump.

Quem lê essa crônica pode pensar: nesse frio, quem quer andar de moto? Nem mesmo o Lineu, apaixonado praticante dos esportes radicais!

Mas Lineu Vitali está na Flórida. E a temperatura por lá anda na casa dos 70 graus Fahrenheit. Lineu está mal acostumado.

Essa manhã tive que tirar quase um caminhão de neve do capô de meu carro. E dá-lhe de remover a maçaroca branca da frente da casa, à pá. Para uma pessoa como eu, avessa a exercícios físicos e que tem em amarrar os sapatos todos as manhãs a sua sessão diária de ginástica, é um suplício. Quando termino o sacrifício, não quero medalhas, mas uma dose generosa de conhaque e um café fumegante, que faço questão de segurar entre as duas mãos, para aquecê-las.

Lembro-me claramente da primeira vez que vi a neve. Corria o ano santo de 1984 e nevara a noite inteira. Telefonei ao Brasil e contei aos pais, aos meus amigos e quem mais tivesse saco de me ouvir.

“A neve é fofinha, parece aqueles doces feitos pela mãe da gente. Deixa tudo branquinho, imaculado, lindo. A neve purifica”, lembro-me de ter expelido essas “pérolas”.

Quando cheguei ao trabalho, naquele dia, recebi uma pá das mãos de meu patrão. Passei quatro horas limpando um estacionamento com capacidade para uns sessenta carros. Começou ali a minha desilusão com os flocos “purificadores” que caem dos céus.

Mais de 30 anos se passaram e neve e frio é, na minha concepção, um dos únicos pontos negativos de se viver nos EUA. Sim, acostumei-me a eles, mas é um exercício de paciência, ficar torcendo para o inverno passar rapidinho para poder, finalmente, abraçar com paixão as primeiras flores da primavera.

O que é uma prova de desinteligência, penso com meus botões. Preciso urgentemente encontrar maneiras de preencher o tempo de forma produtiva durante a hibernação forçada dos invernos.

Não aprenderei a esquiar, certamente. Passeios de snowmobile estão peremptoriamente fora de cogitação. Entregar-me aos prazeres da culinária e do bom vinho, mais aliciantes e menos extenuosos, são uma ameaça à essa silhueta já robusta, produto de mais de cinco décadas de absoluto sedentarismo.

Peço sugestões a amigos, alguns indicam bons livros, idas a teatros e museus, ou mesmo alugar um dvd; Mario Bittencourt sugeriu uma esteira de caminhar, excomunguei-o; Tadeu Martins receitou entrar em uma aula de dança de salão. Descartei, obviamente. Nasci com dois pés esquerdos e meus quadris enferrujaram quando Noé ainda ia à mata cortar madeira para construir sua arca.

Mudar daqui, nesse momento, é-me praticamente impossível. Ainda não terminei a missão no nordeste dos EUA, tenho lenha para queimar e algumas histórias por escrever. Além do mais, admito, tenho mais medo de furacão (abundantes no estado da Flórida) e terremotos, corriqueiros na Califórnia – dois desejáveis destinos caso resolvesse sair daqui para paragens mais quentes -, do que a aludida aversão a neve.

Retornar ao Brasil é um projeto que vem ganhando significância e força dentro de mim, mas depende de alguns fatores. Meu coração já está lá, é verdade, nas montanhas mineiras, numa casa com fogão à lenha, jardim e pomar, uma vasta biblioteca, céu perenemente azul, sempre salpicado de estrelas ao anoitecer.

Antevejo uma casa com ocasionais luas cheias, chuvas de março, margaridas e açucenas esparramadas, xaxins com avencas e samambaias pendendo da varanda, serestas e amigos violeiros, terreiro embandeirado no mês de julho e um “corguinho” para pescar lambaris a uma distância que se percorra a pé.

Enquanto esse dia não chega, é essencial que eu aprenda a conviver inteligentemente com esses três meses de agonia, chumbo e neve. Afinal, passar um terço da vida desejando que o tempo passe rápido, nada mais é do que uma forma de suicídio.

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