Fujona

ninuska FujonaNão tive um único bichinho de estimação na infância. Pedi, mas papai dizia que havia tantos vira latas na nossa rua, que eu não precisaria de um. Com tantos amigos para jogar futebol e nadar no rio, um cãozinho nem fez falta.

Adulto, aqui nos EUA, tive um gato que lutava karatê.

Acho que é isso. Não entendo muito de artes marciais.

Cookie dava uns saltos acrobáticos, do nada, chutando o ar e caindo de pé, como se nada tivesse acontecido. Saindo de cena com um ar arrogante, indiferente aos olhos de quem o visse. O felino tinha parte com Bruce Lee.

Volta e meia, ele perdia-se dentro do sofá-cama da sala.

Como ele ia parar lá é um dos mistérios que não consegui desvendar na vida.

Sem saber sair do labirinto de molas em que havia se metido, miava a noite inteira, atrapalhando a minha frágil capacidade de dormir. Acabei me livrando dele, passando o problema para a frente.

Nunca mais ouvi falar do Cookie.

Quando me casei, concordei que a casa tivesse um mascote. Foi assim que Jade, uma sharpei da cor de chocolate aterrissou.

Jade fez de tudo para me ganhar.

Conseguiu.

Logo eu, que não era e não sou ‘cachorreiro’.

Dócil, ela passava a maior parte do tempo aos meus pés.

Lambia minhas mãos, deitava-se com o corpo apoiado às pernas, fazia muita festa quando eu chegava em casa. Escrevi muitos textos com a parceria dela.

Quando morreu, de velhice, ela já tinha a companhia de Nina, outra sharpei.

Nina foi uma menina problemática, como contarei mais para o fim.

Naquela altura do campeonato eu já tinha três filhas e a casa parecia um zoológico:

Coelhos, peixes, calopsitas moraram ou ainda moram lá.

Há cerca de quatro anos ganhei do Peter Pantoliano uma cacatua branca, com um topete como o do Supla, da mesma espécie de Fred, fiel companheiro do ator Robert Blake, protagonista do extinto seriado Baretta.

Cockatoo (cacatua em inglês) não ganhou um nome. É como se fosse um cachorro chamado cachorro. Confesso que eu e ela nunca nos demos bem.

Ela é metódica, acorda invariavelmente às 6:30 da manhã e emite uns insuportáveis grunhidos de pterodáctilo, que atormentam principalmente as manhãs de ressaca.

Nos primeiros tempos, Cockatoo fugia constantemente da gaiola e destruía janelas e móveis com o apetite de um exército de cupins.

Jamais descobri como ela conseguia abrir a gaiola.

Quis batiza-la de McGyver, sem sucesso. Tive que botar um cadeado.

No ano passado, sua última fuga, destruiu o estofamento de uma cadeira novinha em folha. Fiquei possesso.

Reuní todo mundo e anunciei:

– Deu para mim. É ele, ou eu.

Clarice, a caçula, deu uma risadinha e decretou:

– Pai, não se esqueça de telefonar de vez em quando.

Recolhi-me à minha insignificância.

Não bastasse Cockatoo, Isabella foi visitar um abrigo de cães abandonados pelos donos e  se apaixonou por Hazel, uma viralatas com rabo de barbicacho e sobrancelhas de José Saramago, que estava no corredor da morte.

Não aparecesse alguma alma caridosa para adotá-la, receberia uma injeção letal em três dias.

Resisti o quanto pude, mas recebi a promessa de melhores notas na escola, remoção do lixo, ajuda na louça do jantar.

Só a parte da melhora das notas foi cumprida.

A Hazel, que caiu nas graças de todos, parece ter sangue de tatu. Ela transformou o gramado do quintal e a horta que cuido com tanto esmero, numa fotografia da lua.

Não ouso dizer ela ou eu.

Pode ser que Clarice já não faça questão do telefonema.

Voltando a falar da Nina, é o típico caso  de cachorro fujão. Minha casa é a única da rua inteira que tem cercas de madeira ao seu redor. Mesmo assim, a danada fugia, aproveitando os descuidos da porta aberta durante a entrada das compras.

O bairro inteiro conheceu a sua reputação, uma vez que a vizinhança fazia mutirões de caça e captura, nem sempre com sucesso.

Numa ocasião, ficou sumida durante dez dias e foi encontrada cheia de carrapatos pela ‘carrocinha’ da polícia de Livingston na fronteira com Roseland.

Mas Nina envelheceu, aquietou-se. Há dois anos, teve câncer numa pata traseira e sofreu uma amputação.

Na saída do hospital veterinário, deu-me uma grande lição de humildade e apreciação pela nova oportunidade.

Ao contrário de nós, humanos, não demonstrou tristeza pela aparência decrépita, adaptou-se como pode à nova realidade e continuou povoando a nossa vida, sempre deitada à porta do quintal, imponente, guardando-nos com ares de quem contemplasse as tardes.

Na semana passada começou a ter dificuldades respiratórias. O raio X do hospital não detectou nenhuma anomalia, foi medicada, mas ela definhou.

Nessa manhã, voltou ao hospital para exames de ressonância magnética, pois os médicos-veterinários suspeitavam de um tumor que poderia ter causado inchaço no fígado, dificultando o movimento de abrir e fechar dos pulmões.

Mal foi deixada sob os cuidados da enfermeira o telefone tocou.

Ela não quis morrer diante dos olhos dos donos, o que diminuiu o impacto da dor que ficou.

Hoje, quando eu retornar do trabalho, sei que não serei saudado por seu latido de barítono, o rabo incessante, balançando como um leque em dia de calor.

Nina, a cachorra fujona, fugiu pela última vez.

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