O primeiro dia

Tentava chegar a Conceição do Mato Dentro ainda a tempo de assistir ao jogo Brasil x França, na Copa do Mundo. Foi quando passou, meio escondido na poeira, um barzinho de beira de estrada. Ao ver o anúncio de cerveja, Zé Maria, que já reclamava sua dose diária de cachaça, sempre administrada à hora certa — cuja adminstração trata-se, segundo ele, do segredo inadiável de sua longevidade —, abriu a porta do carro e saiu rumo ao vento e à poeira da estrada. Consegui agarrá-lo pela gola da camisa. Mas tive de parar a fim de que ele pudesse sorver o sagrado gole de cada dia, antes de prosseguir viagem.
Para percorrer o sertão de Minas, anos inteiros, dispunha da casa do mesmo doutor Zé Maria, como base de planejamento e reabastecimento, em Belo Horizonte. Complementando esse apoio, utilizava também diversos dos mais agradáveis bares da capital mineira. Em BH, sempre vivi um vidão. Na estrada, porém, tive alguns percalços. Num deles, em Pedra Azul — um estirão e tanto — Zé Maria foi flagrado, numa fazenda onde rolava uma festa em nossa homenagem, de joelhos, cantando a filha do fazendeiro. Por azar, quem o surpreendeu nessa cena foi o noivo da moça. Tivemos de descer a Rio-Bahia mais cedo do que desejávamos.
Outro estorvo deu-se — dessa vez fora de Minas, no Paraná — quando tentamos viajar de Curitiba para São Paulo por um caminho alternativo, enfrentando estradas de terra, através de uma serra. Até daria para alcançar nosso objetivo desde que, em vez de um automóvel de luxo, estivéssemos a bordo de um jipe ou coisa parecida. Com seis horas de viagem já anoitecendo, fundimos o motor e tivemos de nos hospedar em Itapetininga, para onde fomos rebocados. Só partiríamos uma semana depois. Para compensar o incidente, fizemos ali grandes amizades que perduram até hoje.
Mas, como dizia, em BH, a vida sempre correu mansa. Num dos réveillons que passei por lá, na base de apoio, fui levar a namorada em casa pouco antes da meia-noite, para que ela passasse a data com a família. Ela ainda lembrou que eu havia deixado, no banco de trás do carro, as roupas brancas, próprias para a passagem. Agradeci e firmei aquilo na memória, não poderia esquecer o traje no carro, pretendia raiar o ano vestido a caráter.
Belo Horizonte foi uma cidade planejada no papel. O projeto, escolhido em concurso, é lindo. Principalmente, para quem olha o desenho. Trata-se de uma paisagem de flores múltiplas, rosas-dos-ventos, que, depois de transformadas em cidade, proporcionaram dezenas de praças com cinco e até seis ou mais ruas convergentes. Ou seja, os jurados do concurso devem ter apreciado o projeto como um quadro. A cidade propriamente dita, porém, depois de pronta, virou um desafio para os engenheiros de trânsito. Orientar-se ali é uma façanha. É assim que os convites para um encontro, em BH, sempre vêm acompanhados de dicas minuciosas sobre como chegar ao local combinado.
Na ida, a namorada conhecia bem o caminho. Na volta, as rosas-dos-ventos, nas praças, foram me enganando uma após a outra. Dessa forma, foi-me impossível guardar o sentido de onde dobrar no cruzamento de uma praça em que convergiam seis ruas, por onde passara na ida, fazendo o sentido inverso. Naquela noite entendi que, Belo Horizonte, na verdade, é um verdadeiro clube de esquinas. Resolvi então parar e telefonar para pedir orientação à base. Zé Maria deu umas dicas, mas alertou que eu estava totalmente fora da rota e complementou alertando que já nos aproximávamos da meia-noite.
Voltando ao carro, observei a roupa branca no banco de trás, iluminada por um poste de luz. A visão fez com que me animasse a encontrar logo o caminho. Dei a partida e redobrei a atenção ao dirigir, pois já começava o rush dos retardatários, que, para não perder a hora da festa, dirigiam a toda. No entanto, poucos minutos depois, começaram a espocar os foguetes.
Não acreditei que estava rompendo o ano-novo completamente perdido. Estacionei numa rua deserta e arborizada. Os rojões subiam e descobri que eram mais bonitos vistos dali, do meio da rua. Descobri também que é um momento muito especial este, quando reiniciamos a trajetória rumo ao outro lado da elipse que cruzamos ao redor do sol. Imaginei todos no planeta fazendo juntos a mesma curva. E refleti se, de alguma forma, não passa pela cabeça de todo o mundo, no último segundo de cada ano, naquele átimo de tempo, que estão fazendo a mesma curva, no mesmo grande barco azul que navega o espaço. É uma pena que todos não percebam este momento incomparável para se ter plena consciência de que o homem e o planeta formam um mesmo corpo. E que as coisas são magicamente infinitas — desde que não se deseje nada além de seguir a rota eternamente descrita ao redor da estrela.
Perdido em Belo Horizonte, na cidade traçada de linhas, rosas, vento e poesia, liguei o carro e parti sem rumo. Achei o destino por acaso, quando já clareava o primeiro dia.
(*)
Herculano Campos nasceu em Carangola-MG, em 1912. Faleceu em Belo Horizonte, em 1996. Pintor, professor, retratista e ilustrador. Dentre suas inúmeras premiações, destaca-se o Grande Prêmio no Salão de Belas Artes de Belo Horizonte (1957). Participou de várias individuais e coletivas em Minas Gerais e no Brasil. Tem obras no Grande Hotel de Araxá-MG, Secretaria de Cultura de Minas Gerais, no campus da UFMG, em fundações, instituições e coleções particulares. É autor do painel do teto da Capela de Nossa Senhora da Conceição do Morro do Cruzeiro, Lagoa Santa-MG.

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