Julião é bão

Capa CD Juliao Pinheiro Julião é bãoComeço me perguntando o que espero do jovem sambista Julião Rabello: que ele seja um bão compositor? Bão cantor? Bão violonista de sete cordas? Bão filho de Luciana Rabello, cavaquinista competente e uma das mais maiores especialistas em choro, chorinho e chorões do Brasil? Bão filho de Paulo César Pinheiro, o mais fértil e generoso poeta/letrista da música popular brasileira?

Bem, o bão Julião Pinheiro lançou Pulsação (Acari Records). Nesse primeiro CD, todos os seus sambas têm letras de Paulinho Pinheiro, o cavaquinho de Luciana está em treze das quinze faixas inéditas, e o cavaco de sua irmã mais velha, Ana Rabello, nas outras.

Eu já ia escrevendo que o CD do Julião é lindo… Epa! Não! Eu não posso dizer que adorei o disco. Pareceria que eu o elogiei apenas para agradar meus amigos, os pais do Julião.

E foi exatamente por saber o quão bão Julião é, que me atirei numa rigorosa audição. Busquei desacertos harmônicos e melodias frouxas. Com a faca nos dentes e sangue nos olhos, vasculhei cada compasso das músicas do Julião. Seria ele um cantor afinado, que divide as frases na manha?

Claro que depois de tanto garimpar defeitos, eu… não os encontrei. Ou melhor, pra não dizer que não descobri nenhuma, nenhuminha coisica pra justificar um pau no disco do moço, eu encontrei – prepare-se, leitor, aqui vai a sentença –, Pulsação é bão! E olha que, nele, Julião ainda não está tão inteirão, como logo estará.

Jovem, Julião já é compositor e cantor de primeira linha. Com o tempo ele será ainda “mais bão” do que já é. Ouvindo-o, senti que há ouro em pó em sua alma de sambista – ouro que aflorará com ainda mais fartura em seus próximos sambas.

E por falar em samba, os em tom menor são o meu fraco, e quando letrados com versos que têm conteúdo, tornam-se irresistíveis.

Com arranjo de Maurício Carrilho, o trombone de Everson Moraes abre o CD, tocando a intro de “O Morro e o Samba”. Julião canta com pegada de veterano – ouço e sinto que Nelson Cavaquinho está presente. E sorrio.

“Samba do Navegador”, também com ótimo arranjo de Carrilho, vem macio. Julião fortalece os versos: “Um navegador/ Não é de chorar/ Porque deixa a dor/ Nas asas do mar (…)”.

E mais: “Tem Sempre Alguém” (participação de Amélia Rabello), “Bamba com Bamba” (participações do MPB4 e do Regional Carioca) e “Vou-me Embora” (participação do Samba do Ouvidor), uma despedida até o próximo disco do Julião. Ele que é, e sempre será, bão compositor, cantor e violonista.

Indiscutivelmente, Pulsação é um dos três melhores CDs de samba de 2018. Logo na estreia, o jovem Julião Pinheiro formou uma trinca de ouros com os álbuns de Monarco e Moacyr Luz, ambos também lançados este ano.

Antes do ponto final, confidencio: vejo a família do Julião reunida num canto de conto de fadas. Todos envoltos em fantasias. Tudo lá se decide cantando. Tudo é samba e é choro, cravejados de magia. Tudo harmonia. Tudo palavras expressas em rimas. Tudo sob aquele teto é dito em sextilhas.

Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4

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