Café de los Maestros

Tive o privilégio de ter sido convidado para apresentar aqui no Brasil o Café de los Maestros. O espetáculo leva para o palco a magia do premiado projeto de Gustavo Santaolalla, Gustavo Mozzi e Walter Salles, que reúne em filme e CD os velhos mestres do tango argentino. São artistas com mais de 80 anos de idade, em plena forma. Como um bom vinho.

E não se trata apenas de idosos que voltam ao palco. Estou falando de gente que ajudou a escrever a história do tango: Fernando Suárez Paz, Osvaldo “Marinero” Montes, Aníbal Arias, os incríveis cantores Nina Miranda e Juan Carlos Godoy, e tantos outros. Violinos, bandoneones, cello, baixo, violão e piano sob a regência brilhante do maestro Osvaldo Requena.

O mais impressionante de poder conviver com esses mestres nos bastidores é ver a paixão pura, quase adolescente, com que mergulham no espetáculo. Mesmo antes de serem chamados para o 3o sinal, já estão todos nas coxias, prontos para entrar em cena. E como são números que se alternam, seria normal que cada um esperasse sua vez no conforto de seu camarim. Não, ficam todos ao lado do palco, cantando, tocando e gritando “bravo!” a cada apresentação de um companheiro. Como um bando de jovens, no entusiasmo de seus hormônios inquietos.

O tango surgiu no ambiente dos prostíbulos e foi elevado à categoria de música de salão a partir da gravação de “Mi noche triste” – por Carlos Gardel – depois de mudarem a letra para não chocar os ouvidos mais puritanos. Ainda hoje, nas entrelinhas de cada canção, se pode captar a malandragem e o humor típico do “lunfardo” de “chantas y pebetas”.

Nossos “Maestros” viveram tudo isso. Nos camarins, as conversas incluíam histórias clássicas sobre Gardel ou Piazzola e outras mais picantes, como as de Don Juanca (Juan Carlos Godoy), notório namorador que afirma ter tido mais de 100 mulheres. Também surgiam brincadeiras sobre “pirulines”, “La CumparSutra” e até curiosidades sobre as técnicas de plantação de uvas. E claro, pelo avançado da idade, sempre havia algum comentários sobre colesterol ou diabetes.

Uma noite, ao final de um concerto, saí do restaurante abraçado a Nina Miranda cantando em duo “Melodias de Arrabal”, o tango que meu pai me ensinou quando eu era criança. Não sei onde anda “mi viejo”, mas com certeza deve ter se emocionado tanto quanto eu.

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