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Trova do Guri e da Guria

O desafio em forma de versos improvisados é uma tradição que vem desde a Idade Média e chega até os nossos dias com as batalhas de rap. No Brasil, passa também pelo partido alto do Rio de Janeiro, o repente nordestino e a trova gaúcha.

Quando Kleiton e eu fomos gravar nossa primeira trova, nos anos 1980, tive um encontro inesquecível com o saudoso Gildo de Freitas, pra ver se conseguia aprender alguma coisa. Tudo o que eu sabia da arte de improvisar versos gauchescos eram lembranças de infância, quando eu era um guri de calça curta, curioso, com o ouvido colado na Rádio Farroupilha, ouvindo as atrações que o Darcy Fagundes apresentava no Grande Rodeio Coringa. Entre eles, Gildo de Freitas, o Rei da Trova.

O que aprendi naquela tarde divertida que passei com Gildo é que improviso de versos é uma arte para poucos. É um dom, uma mistura de inteligência intuitiva, sensibilidade artística e intimidade com as palavras. Eu adoro ver gente improvisando, criando na hora. É um talento que eu não tenho. Por isso, o que Kleiton e eu temos inventado são falsas trovas. Simulam o calor do improviso, quando na verdade foram escritas e reescritas no papel. É um teatro, que conta com a cumplicidade do público, que embarca na brincadeira.

A Trova do Guri e da Guria é exatamente isso, uma brincadeira, uma paródia do que seria uma guerra dos sexos infantil, em forma de versos. Quando fomos gravar o CD de estúdio, começamos a pensar em alguém pra “fazer o papel” da guria. Mais do que uma cantora, precisávamos de alguém que interpretasse aquela personagem. Foi quando lembramos da Fabiana Karla. Eu havia trabalhado com ela no teatro e sabia que, além de atriz talentosa, é uma ótima cantora. A escolha não poderia ter sido melhor. Fabiana deu um charme todo especial à guria e, agora no espetáculo que gerou o DVD, transformou a cena em um momento hilário. Ela surge como “A Moreninha Espevitada do Recife”, uma prenda nordestina, arretada e petulante, que enfrenta de igual para igual o desaforo dos moleques K&K.

Imperdível!

GURI: Guria tu é muito feia / Com os cabelo arrepiado / Tu parece uma bruxa / Com esses ôio arregalado / Tudo cheio de ramela / Tu devia ter lavado // GURIA: Quem precisa se lavar / É tu, cara de lombriga / Não toma banho há um mês / Não escova os dentes, nem liga / Tem meleca no nariz / Vem cá, eu vou partir pra briga // GURI: Tu não vai partir pra briga / Mulherzinha não é de nada / Só fica de nhem nhem nhem / É uma boneca mimada / Guria não tem peru / E só faz xixi sentada // GURIA: Eu faço xixi sentada / E não sou como os guris / Que ainda usam fralda / E só sabem ler gibi / E põem chiclete nos cabelos / Da gente, pra se exibir // GURI: Eu faço pra me exibir / E vou explicar porque / Guria é um bicho estranho / Mas tem um sei lá o quê / O meu coração balança / O que é que eu posso fazer? // GURIA: O que tu podes fazer / É deixar de ser metido / As bobagens que eu ouvi / Saíram pelo outro ouvido / Então, se eu ganhar uma flor / Fica tudo resolvido // GURI: Vamos fazer o seguinte / Esquece essa discussão // GURIA: Me dá um beijo, um abraço / E um aperto de mão // GURI e GURIA: Vamos brincar de outra coisa / Esse assunto tá encerrado / Quem sabe a gente começa / A brincar de namorado?

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