Colchão e travesseiro

Durante toda minha vida, sempre dormi na posição errada. A repetição desse mau hábito, somada a uma vida sedentária e ao peso de guitarras e violões, estourou minha cervical. Fui parar no médico que me ensinou a dormir, coisa que eu acreditava ter aprendido com minha mãe. É assim: todo ser humano deve dormir de lado, com a cabeça apoiada em um travesseiro compatível com a largura dos seus ombros, para que a coluna fique o mais reta possível. Mais um travesseiro entre as pernas e outro para abraçar, a noite toda. Minha mulher não gostou. Expliquei que é recomendação médica, mas ela continua desconfiada.

O homem é um bicho todo errado. Como é possível que um animal precise de 3 travesseiros para dormir? Eu olho pra natureza e não vejo nenhum animal com tanta frescura. O leão joga seu corpo sobre a relva, o macaco se acomoda num galho, a baleia fica boiando. Tem até bicho que dorme em pé, como é o caso do cavalo. Não consigo entender. Alguma coisa deve ter saído errada conosco.

A escolha do colchão certo é outro detalhe fundamental. Para cada corpo, há uma densidade recomendada. Como é que eu vou explicar isso para cada recepcionista de hotel em que me hospedo? Ainda ontem, em São Paulo, eu pedi um travesseiro antialérgico, mas a garota falou que só tinha de pena de ganso. Cheguei no quarto e notei que a altura do travesseiro e não combinava com as minhas medidas. Sentei na cama e o colchão era muito mole. Desci até a portaria e pedi para chamar o gerente. Mostrei minha ressonância magnética e as recomendações médicas. Falei pra ele que aquele hotel era incompatível com meu corpo. O sujeito ficou atordoado, sem saber o que fazer. Para compensar, me ofereceu como cortesia a suíte Presidencial, onde supostamente deveria haver tudo do bom e do melhor. Fui transferido como um rei para a imensa cobertura e, além da tradicional cesta de frutas, mandaram por conta da casa uma garrafa de pró seco. Para alegria do meu produtor, já que eu não bebo.

Depois de instalado, notei que a cama era ainda mais mole e tudo afundava, especialmente minha coluna vertebral. Os travesseiros eram tão leves e fofos que deviam ter sido feitos com as penas de algum ganso descendente de uma linhagem real, criada a pão-de-ló nos jardins do Palácio de Versailles.

Pelo avançado da hora, desisti de reclamar. Tomei um anti-inflamatário e fui dormir. Pelo menos eu teria uma noite de rei.

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