Colchão e travesseiro – 2a parte

Semana passada escrevi sobre meus problemas com a cervical por conta do mau hábito de dormir de bruços, todo errado. Entre as várias desventuras que já passei com colchões e travesseiros, destaquei aquela que, por cortesia do gerente, me fez parar na suíte presidencial de um hotel em São Paulo. Onde, imaginei, teria uma noite de rei.

Tive uma noite péssima. Acordei na manhã seguinte, cheio de dor, pensando que vida de rei não deve ser tão fácil assim. O cara é obrigado a dormir numa cama que afunda, com os travesseiros mais macios do mundo, quando a ciência recomenda densidades e medidas específicas para colchões e travesseiros. Mas os vassalos, que só dominam a ciência de puxar o saco do rei, ignoram as opiniões científicas. Só querem saber de tornar a vida de Sua Majestade o mais agradável possível. E para eles, agradável é sinônimo de “coisa fofa”. Talvez por isso alguns reis sejam lembrados mais como uma “coisa fofa” do que por seus feitos históricos.

Nós, os simples mortais, temos experiências de vida que a realeza nunca vai ter. Por exemplo, dormir no tapete ou num colchonete jogado no chão. Por mais estranho que possa parecer, isso faz bem pra coluna. Claro, algumas das nossas experiências da juventude não devem ser repetidas na maturidade, como dormir no banco de trás de um fusca 68, depois de fazer amor com a namorada.

Não há registro nem citações históricas a respeito das colunas cervicais da realeza. Muito menos que algum tenha dormido dentro de um fusca. A saúde desse pessoal é mantida como segredo de estado. Eles se consideram semideuses, um tipo de gente com atributos divinos. Vai ver que é essa a diferença: os caras são tão especiais que podem até dormir nessas condições fofas, sem afetar a cervical, a lombar e o resto das vértebras. Se é que eles têm vértebras.

Nós, a plebe, temos que seguir as orientações médicas para conseguir sobreviver. Não temos direito a frescuras. Nosso corpo não agüenta. Somos fisicamente incapacitados para as benesses da realeza.

A boa vontade do gerente em me colocar na suíte presidencial, apesar de bem intencionada, teve resultados catastróficos. No dia seguinte acordei todo torto, com o pescoço duro. Aquilo detonou uma crise que durou dias. Para cumprir meus compromissos profissionais, tive que continuar viagem com bolsa de gelo no local e caixas de remédios.

Tudo bem. Valeu a pena. Pelo menos por uma noite dormi como um rei. Tive sonhos tão extraordinários que pareciam um filme de época. Envolvia um baile da corte, uma rainha deslumbrante, várias amantes, frutas, vinhos… e mais não conto pra você não pensar que eu estou mentindo.

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