Em busca de um lugar à sombra

Salvador Dali, polêmico como sempre, declarou certa vez que não queria ter filhos, pois “todo filho de um gênio é um idiota”.

Se pensarmos que os novos artistas são como filhos dos que vieram antes e resolvermos aceitar a provocação do mestre do surrealismo, nós, os aprendizes de qualquer ofício, não conseguiremos dar um passo sequer. Especialmente nós, os gaúchos que gostamos de escrever, pois são muitos os grandes escritores que nos precederam e deixaram uma enorme sombra.

Contrariando as leis da física, alguns consideram que a sombra tem peso e, por isso, não é fácil escrever no Rio Grande do Sul. Uma “terra de escritores” como escuto por todo Brasil.

Por outro lado, a sombra pode ser vista como um abrigo prazeroso, um bom lugar para estar. Dessa forma, um patrimônio de obras extraordinárias funciona como estímulo e não como asfixia. Temos aqui um ambiente propício ao surgimento de boa literatura, pois nossos mestres são da melhor qualidade: Simões Lopes, Verissimo, Quintana…

É nesse sentido que procuro entender a sombra: ela vem carregada de sabedoria. Meu esforço é para conseguir aproveitar isso que ela tem de melhor.

Desmontando a tese polêmica de Salvador Dali, debaixo da sombra dos grandes da literatura do Rio Grande do Sul já surgiram novos grandes autores. E novas sombras. É nesse panorama que eu apareço, embaixo da sombra que está debaixo da sombra. E gosto disso. Não ando em busca de um lugar ao sol.

Minha presença na literatura é recente. Venho de um outro meio, a música popular, e fui recebido com generosidade tanto pelo público leitor como por escritores e críticos.

Entrei no mundo dos livros discretamente, como convém a um principiante. Comecei escrevendo crônicas, que é a forma mais simples de literatura e, por isso mesmo, uma boa maneira de se exercitar.

Ando em busca de um lugar à sombra. Esse tipo de ambiente me faz bem, gosto das boas companhias. Elas me servem de referência e fonte de ensinamento. Por enquanto, só quero conseguir um lugar para sentar e abrir meu notebook debaixo dessa árvore. Quero poder ficar aqui, quieto, tomando meu mate e aprendendo a escrever.

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