Baianês

O Brasil é pródigo em dialetos bacanas. Certa vez uma baiana falou que queria me “dar um cheiro” e eu levei um tempo pra entender o significado daquilo. Aos poucos, como viajo o tempo todo, fui me acostumando com os linguajares típicos de cada lugar e hoje em dia já me comunico sem problemas, do Oiapoque ao Chuí. A diferença é que, com o avançado da idade e com o fato de eu ser um homem casado, as morenas pararam de dizer que querem me dar um cheiro.

Semana passada estive em Salvador para 3 shows em teatro e, apesar da chuva, renovei minha paixão por essa terra extraordinária. Não estou falando só das morenas. O baiano é um povo carinhoso, alegre, musical e… muito lento. E como eu também sou devagar, não gosto de nada muito acelerado, me identifico com o ambiente. Tô no meu elemento.

Dessa vez, minha grande descoberta foi que na Bahia existe um outro alfabeto. Isso mesmo. Liguei pra recepção do hotel pra pegar a senha do wireless e a moça falou:

– Agá, guê, nove, ji, oito, lê, mê.

Tomei um susto e pedi para ela repetir. Ela repetiu exatamente a mesma coisa. “Vamos combinar o seguinte”, falei. “Você anota num papel e pede pro rapaz trazer aqui no quarto”.

Lendo a anotação, decifrei o enigma. O que ela chamava de “guê” é o nosso G, o “ji” é o J, o “lê” é o L e “mê” é o nome da letra M.

Fui procurar ajuda com meus amigos soteropolitanos e aprendi o abecedário baiano. Anota aí, é uma informação preciosa que não aparece nos guias de turismo: A B C D E “fê” “guê” H I “ji” “lê” “mê” “nê” O P Q “rê” “si” T U V “xê” Z.

Certas letras não existem com os nomes que a gente conhece: efe, gê, jota, ele, eme, ene, erre, esse, xis. É muito estranho. Kleiton e eu temos uma música chamada Maria Fumaça que termina cantando RFFSA, a sigla da antiga Rede Ferroviária Federal. Pensei em cantar “rê” “fê” “fê” “si”… mas os produtores acharam que eu não precisava ser tão detalhista.

Ah sim, você deve estar se perguntando que história é essa de soteropolitano. É o gentílico de Salvador. Ou seja, quem nasce em Salvador, Bahia, não se chama salvadorense, como seria o natural. Soterópolis é a tradução do nome da cidade para o grego: “cidade do Salvador”.

Coisa de baiano. Ó pai ó.

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