Os porquês

porque Os porquêsNunca entendi por que existem tantos porquês na escrita da língua portuguesa. São quatro. “Porque”, “porquê”, “por que” e “por quê”.

Dá pra entender? Pois é, eu também acho um exagero. Quando criança, devo ter faltado à aula sobre esse tema e o resultado é que continuo cometendo erros, sem saber direito o porquê dos porquês.

Em inglês, por exemplo, é muito fácil reconhecer a diferença entre why e because. Uma serve para interrogação, outra para afi rmação.

Os franceses também usam palavras distintas para perguntar e responder: pourquoi e parce que.

Hoje em dia, como muitos escritores, me benefi cio da vantagem do corretor ortográfi co do computador e, na hora de publicar, conto com a ajuda dos revisores, esses anjos da guarda que limpam as besteiras que a gente faz com as regras da “última fl or do Lácio, inculta e bela”.

Envergonhado de ser corrigido o tempo todo por meus deslizes, resolvi abrir o empoeirado livro de gramática que dormia na prateleira e cheguei a algumas conclusões. Resolvi anotar pra não esquecer:

Porque — é uma conjunção, serve para ligar duas orações.

Porquê — é um substantivo e deve ser usado quando você precisa explicar a razão, o motivo, “o porquê” das coisas.

Por que — escreve-se separado quando o “que” tem função de pronome. Em geral, é usado no sentido de “pelo qual” ou “por que razão”.

Por quê — sempre que estiver em um fi nal de frase, o “quê” deve ser acentuado.

Acho que é isso. Vou fazer uma cola e carregar no bolso.

Cada vez que cometo um erro dessa natureza, fi co pensando que o professor de português deveria ter sido mais rigoroso comigo. Deveria ter me batido com a régua nos dedos e me colocado de castigo, de joelhos em cima de grãos de milho, no canto da sala. Com um cone de papel enfi ado na cabeça. Talvez assim eu tivesse aprendido a matéria.

Atualmente, o mundo está bem melhor e os jovens têm a oportunidade de aprender com mais leveza. A pedagogia tem evoluído, com métodos cada vez mais efi cientes e didáticos. E, graças a Deus, as punições para esse tipo de infração gramatical são mais civilizadas.

Mesmo que minhas bobagens continuem sendo corrigidas pelo olhar atento dos revisores, por iniciativa própria comprei um caderno de rascunho e preenchi cada linha com a seguinte anotação:

“Já sei por que os porquês são quatro. É porque a língua fica mais rica. Entendeu por quê?”

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