Lua de mel

luna Lua de melLeandro chega esbaforido à casa de Mônica. Vai à geladeira – noivo com sete anos de casa já tem este tipo de liberdade, pega uma cerveja e dirige-se à amada:

– Mônica, já sei onde passaremos a nossa lua-de-mel.

Mônica corre ao seu encontro, feliz. Há mais de seis meses batem cabeça e não chegam à conclusão alguma.

– Será no Caribe? Você vai reconsiderar Santo Domingo, amor?

Leandro sorve dois goles da bebida, folheia uma revista que está sobre a mesa da cozinha e responde, meio disperso:

– Não, não vai ser Santo Domingo. Nem Cancún, como seu pai havia sugerido.

A moça não parece ter se zangado com a negativa e sai dizendo nomes de cidades espalhadas pelo mundo.

Leandro está firme. Caminha até a sala, ajeita-se na poltrona e liga a TV. Mônica não sossega:

– Mas você não vai me dizer? Poxa, é a “nossa”- dá ênfase ao “nossa” – lua-de-mel…

Leandro troca de canal, vira-se para ela e vai eliminando, cidade a cidade, as sugestões apresentadas.

– Lua de mel no Egito? Nem que a vaca tussa. Ali, pertinho da guerra… Sem chance ver as pirâmides.

Dá outro gole no suco e continua.

– Amsterdã está fora de cogitação. Seria maravilhoso se estivéssemos na primavera européia, com todas aquelas tulipas colorindo as ruas; Em Barcelona, nem se o Messi ligar para cá convidando… A Espanha está fora da lista, depois que o Neymar debandou… E, no Caribe, é farofa-geral. Me inclui fora dessa…

Mônica tira a última carta da manga do casaco:

– E Paris? Bem que poderíamos ir a Paris. O Neymar foi pra lá.

– De maneira alguma, irrita-se ele. Você já esteve em Paris com seu ex-namorado, lembra?

Visivelmente na defensiva, Mônica senta-se ao seu lado, ensaia um carinho nos cabelos ligeiramente raleados, e faz-lhe um dengo.

– Ta bom, amor. Esqueça Paris. Onde você sugere, então?

O rapaz se levanta, olha fixamente para os olhos dela e, com a firmeza e o entusiasmo de alguém que acaba de inventar a roda, anuncia:

– Vamos para Nova York, a Big Apple!

Mônica também se levanta. Está visivelmente agitada. Vira-se para o noivo e nem consegue dizer mais nada, além de um pasmo “Nova York?!”

Leandro parece possuído.

– Eu sei que você argumentará que em Nova York está tão frio quanto Amsterdã, e que após o 11 de Setembro Nova York é tão suscetível a um ataque terrorista quanto Barcelona. Mas eu te darei pelo menos cem bons motivos para passarmos lua de mel em Nova York.

Dá mais um gole na cerveja, todo compenetrado, e abre a voz:

-Imagine que estamos passeando nas românticas charretes que atravessam o Central Park e cruzam as ruas enfumaçadas pelo calor que vem debaixo do metrô… Imagine os museus fantásticos… As maravilhas arquitetônicas, entre elas o Empire State, as pontes, os túneis… Imagina a grande variedade de espetáculos, os musicais da Broadway, os eventos esportivos do Madson Square Garden… As compras nas lojas deslumbrantes da quinta avenida… A diversidade cultural do Chinatown, do Little Italy, com seus restaurantes aconchegantes… A loucura democrática do Village, com seus bares alucinantes, redutos em que punks e yuppies se misturam …

Mônica puxa o noivo pelo braço e o interrompe:

– E eu te darei um único e definitivo motivo para não passarmos nossa lua de mel em Nova York.

– E que motivo é este?

– Moramos no Bronx, meu amor. No Bronx!!!

Ato contínuo, vira-lhe as costas e vai para o quarto com uma cara zangada.

 

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