Um banquinho, um violão

12 1 Um banquinho, um violãoMinha homenagem pra ele, numa sátira publicada em 2010.

– O pato…

– Seu João, o senhor tá cantando muito baixinho. A gente quase que nem escuta o que diz a letra da música.

– Vinha cantando alegremente, quem-quem…

– Posso fazer pro senhor um caldo forte de gengibre, canela, vinagre e limão. Não me custa nada, é tiro e queda pra deixar a garganta zero bala. Tem que cantar alto, que nem o seu xará João Mineiro, aquele que faz dupla com o Marciano.

– Quando o marreco sorridente pediu…

– Mas que coisa esquisita, parece que canta pra dentro. Enche o peito e solta o vozeirão, homem. Fica nesse nhem-nhem-nhem.

– Olha, se você não ficar quieta eu pego o violão e vou-me embora.

– Mas o senhor tá na sua casa, Seu João. Se alguém tem que ir embora sou eu, que comecei agora de arrumadeira aqui.

– Oi. Alô, é João. Tudo bem? Melhor cancelar o show no Carnegie Hall, não estou conseguindo ensaiar.

– (…)

– Não, não é barulho nem fumaça de cigarro. Também não é ácaro no tapete. É uma arrumadeira que me apareceu aqui, a mulher me desconcentra…

– (…)

– Tudo bem, vou tentar de novo. Mas já vai arrumando aí uma desculpa pro cancelamento.

– Se você disser que eu desafino, amor…

– Diz que o senhor é cantor, né. O porteiro que falou. Mas eu não lembro do senhor nem no “Raul Gil” e nem no “Ídolos”. Senhor fica assim de terno dentro de casa o dia todo, é? Ficava melhor com uns blazer listado, a camisa meio aberta assim no peito e um correntão de ouro saindo pra fora, aí sim ficava com o look nos trinques. O doutor não ia nem parar em casa, de tanto show que ia aparecer. Feira agropecuária, quermesse, comício…

– Saiba que isso em mim provoca imensa dor…

– Seu João, desculpa interromper, mas o senhor podia me emprestar o banquinho pra eu tirar o pó de cima do armário? É só um instantinho, já devolvo já.

– Pois há menos peixinhos a nadar no mar…

– Seu Gilberto, o senhor se incomoda de levantar um pouco os pé do tapete pra eu poder limpar?

– Que é pra acabar com esse negócio de você viver sem mim…

– Alô, Bebel, essa arrumadeira… foi Miúcha que indicou, é? Pois eu digo que sua mãe guardou mágoa de mim, heim filha? Mais quinze minutos aqui com essa mulher e eu abandono a vida artística.

(…)

– Tá, um beijo pra você também.

– Olha, minha senhora, vamos combinar uma coisa. Eu dou agora o seu dinheiro, leva também um autógrafo meu e trata de pegar logo o rumo da sua maloca. Não precisa terminar o serviço. Tá bem assim?

– E eu vou fazer o que com o seu autógrafo? Eu nunca que vi o senhor, ainda se fosse do grupo Molejo, vá lá. O senhor tá se achando. Cresce e aparece, velho metido.

– Nem se aproxime com esta cera! Não tem que passar cera no assoalho, não. O surfactante aniônico da fórmula me aniquila o Lá Bemol e já me deixou afônico duas horas antes de um show no Budokan, em Tóquio. A alcanolamida, que é outra substância que exala da cera, fica em suspensão no ar e interfere na afinação do violão. Não há pai de santo baiano que segure o instrumento afinado. A senhora se afaste, antes que eu lavre um BO contra a sua pessoa.

– Bim-bom, bim-bom, bim-bom, bim-bom, bim-bim… é só isso o meu baião, e não tem mais nada não…bim-bom, bim-bom, bim-bom, bim…

– Pois é, ainda bem que o senhor avisa que não vai sair disso mesmo, né? Bim-bom, bim-bom, bim, bim, bim, podia ter uma segunda parte pra mudar um pouco essa lenga-lenga. Ô coisa chata, seu Giba.

– Giba é o diabo que te carregue. Some daqui, Dona.

– Dona Esmeraldina, sua criada. O senhor é que é muito do malcriado, Seu João. Quer dizer, Seu Gilberto.

– Tristeza não tem fim, felicidade sim… Tristeza não tem fim…

 

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