Memórias de armazém

almazem Memórias de armazémUma ou duas portas de frente para a rua. Às vezes, um banco de madeira para quem quisesse permanecer. Dentro, algumas montras feitas por marceneiro, balcão com vitrines transparentes, prateleiras, um rádio sempre ligado e a imprescindível balança Filizola. Este era o cenário do universo maravilhoso dos armazéns que ainda hoje habitam o imaginário de quem viveu há não muito tempo no interior do Brasil.

Para a população não era chamado de armazém. Era a venda.

Ah, as vendas de antanho…

Os supermercados e shopping centers nos roubaram tanto de intimidade e poesia… Tanto!

Na ‘venda’ que habita a minha saudade tinha rapadura, lápis sem ponta e com ponta, e com borracha na ponta. Tinha tabuadas, cadernos da marca tilibra, convencionais ou de caligrafia.

E um baleiro giratório sobre o balcão com balas sortidas e chicletes ping-pong e ploc.

A granel estavam disponíveis do alpiste ao açúcar, farinhas de trigo, mandioca e milho, feijão de várias cores e amendoim com casca.

Tinha também arroz, milho, canjiquinha e canjicão. E farelo para alimentar os porcos.

Pão?

De doce e de sal, ao gosto do freguês, e ficavam expostos na vitrine, junto com umas delícias como a maria-mole, o suspiro, as cocadas e o pé de moleque, esses últimos geralmente preparados pela esposa do proprietário.

A banana era vendida em cachos ou a dúzia: prata, maçã, caturra e ouro. Tudo era embrulhado em papel pardo e bem amarrado com barbante de algodão.

Jabuticaba era vendida ao litro. Laranjas e mexericas a dúzia ou ao cento.

Em alguns meses do ano era possível encontrar pitanga, seriguela, jambo e fruta do conde.

Aquilo pendurado na parede não era um extintor de incêndio, e sim, uma bisnaga de salame, que o atendente ia cortando de acordo com o apetite e orçamento do freguês.

Havia também uma espécie de trapézio pendendo do teto, onde eram dispostas as linguiças semidefumadas de boi, porco e mista.

Para os meninos havia bolas de borracha Pelé e Tostão. A Pelé era de cor escura, enquanto a Tostão era branca, assim como as “dente de leite”, que queimavam e deixavam hematomas em quem se atrevesse a ficar na frente.

Para chutá-las era providencial adquirir um conga, um kichute ou um bamba maioral.

Havia caminhões artesanais feitos de lata de óleo de cozinha reciclada e pneus de sandálias havaianas jogadas fora.

Tinha peteca confeccionada com palha de milho e penas de galinha. E cromos para os álbuns de figurinha e ‘caixinhas de segredo’, que se comprava sem saber o que vinha dentro.

Bonecas de pano e matéria plástica, que viravam os olhos quando colocadas na horizontal, brincando de dormir.

Havia também times inteiros de futebol de botão, piões de madeira e soldadinhos de chumbo sempre prontos para épicas batalhas.

O Rio Doce corria pertinho e havia chumbada, linha de nylon e anzóis de todos os tamanhos. E varas de pescar feitas de bambu e ubá. Além do chumbinho para as espingardas de pressão.

E um sortimento de bolinhas-de-gude – que no interior de Minas chamávamos de biroscas -, que parecia saído da arca de algum tesouro. Eu era muito ruim de birosca.

Na venda era possível comprar manivela feita de ripa de madeira, que era usada para dar linha aos papagaios e pipas. E papel em todas as cores, para a confecção daquelas magníficas aves de seda.

Para as donas de casa tinha anil de clarear a roupa, linhas de diversas espessuras, botões de vários tamanhos, agulhas, alfinetes e dedal.

Impossível não sentir o cheiro forte recendendo de um canto detrás da porta. Era lá que ficava o tambor de querosene, que muitas famílias usavam para alimentar os lampiões e lamparinas, que também eram vendidos ali.

O combustível era disponibilizado em vasilhames reciclados. A clientela humilde podia pedir corozena ou criozena, que dava no mesmo. O balconista não reparava.

Outros itens de odor desagradável eram a naftalina – eficaz no combate às traças – e a creolina, usada para curar ‘bicheiras’ em animais, desinfetar galinheiros ou eliminar as pulgas.

Havia detefon para as baratas e neocid para os piolhos, duas pragas que driblavam o extermínio.

Como contraponto tinha aqua velva, seiva de alfazema, trim para passar no cabelo, talco, pomada minâncora para o ‘cecê’ e assaduras, e o ortodoxo polvilho granado, antídoto para o chulé.

Em determinados lugares era comum encontrar fichas de telefone e pedras de isqueiro.

Canivete, palha e fumo de rolo eram comodidades obrigatórias nos armazéns.

Da barriga da geladeira Prosdócimo ou Cônsul saíam a milenar coca-cola, fanta, crush, grapette e mirinda, sempre geladinhas. E a garapa de cana, com sua tradicional cor de água de pé de andarilho.

A turma da birita era clientela pontual.

Aposentados, desocupados e trabalhadores em fim de expediente encostavam seus umbigos no balcão para uma branquinha da roça ou uma brahma chopp com véu de noiva. Como acompanhamento, um naco de chouriço de sangue, linguiça da roça ou um torresmo sequinho, daqueles que ficavam em sacos de estopa. Ali a prosa corria solta, discutiam as injustiças do futebol e os rumos da nação.

Uma das maiores atrações das vendas, no entanto, eram as cadernetas. Numa era pré-cartão de crédito e débito era comum os clientes levarem os produtos e ‘pendurarem’ a conta para ser quitada depois.

São páginas bonitas e simples de um tempo tão distante, que parece ter ocorrido em outra encarnação. O que não me impede de fechar os olhos e sentir cheiros, sabores, e escutar vozes e canções vindas do rádio do armazém. São pedaços de um período bonito de minha vida, memórias embrulhadas em papel de pão.

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