Monarcas de eras distintas

pelezim Monarcas de eras distintasCristiano Ronaldo foi eleito o melhor jogador de futebol do mundo pela quinta vez em dez anos. Seu treinador Zinedine Zidane foi a público dizer que se tratava do melhor de todos os tempos. Não concordo. Não que o madeirense não seja excepcional.  Ou que não possa realmente ser o maior. Trata-se de um atleta espetacular, mas parto da premissa que não se compara jogadores de eras diferentes.

Dizer que Ronaldo ou o argentino Messi foram melhores que Maradona, Pelé, Di Stefano ou Puskas é algo que não consigo conceber. Fossem contemporâneos, não sei sequer se CR7 seria melhor que os Ronaldinhos brasileiros (Gaúcho e Fenômeno), jogadores que lhes passaram (a ele e Lionel Messi) o cetro de monarcas da bola moderna.

Ronaldo Fenômeno perdeu para os próprios joelhos e teve a carreira abreviada.

Mereceu o apelido. Era fenomenal.

Já o seu xará gaúcho se desinteressou pela profissão, abriu mão de entrar para a história como um gênio e foi tentar conciliar bola e balada. Obviamente não deu muito certo.

Na era “pré-moderna”, estes dois foram os melhores que vi jogar. E ainda teve Romário, um absurdo de bom e que é esquecido na hora das comparações.

Vendo tanto frisson em torno de Messi, Cristiano ou mesmo de Neymar, eu fico ligeiramente tonto.

Parece que o mundo do futebol se esqueceu de que há não muito tempo existiu Romário, Zico, Reinaldo, Baggio, Donadoni e Boniek.

O futebol evoluiu demais, tanto o esporte quanto a sua indústria. Os jogadores de agora são melhores atletas do que os de antigamente. Cruyff e Gerson, dois jogadores geniais, fumavam no intervalo das partidas. Seriam execrados hoje

Vivemos a era dos super atletas, criaturas preparadas para atingir seu máximo potencial.

E isto começa desde cedo.

Ainda nas categorias de base o garoto possui agente, empresário, assessor de imprensa e seus passos são acompanhados e filmados para a construção do DVD, que será uma espécie de currículo para o futuro profissional que se tornará. Mas já é tratado como um, quando ainda é teoricamente um amador.

No clube de formação ele tem acesso a professores que os ensinam a dar entrevistas, dentistas, médicos, preparadores físicos, fisiologistas, nutricionistas, analistas de desempenho e conselheiro financeiro. Não raro, psicólogos,

A infraestrutura de excelência, com academias de ginástica de ponta nos centros de treinamento não estava à disposição de Garrincha e Mazola, por exemplo.

Mesmo nos tempos de Maradona e Platini, outros cracaços mais recentes – e isto nem faz tanto tempo assim – não havia nada disto. Não deste jeito. O que nos deixa com a sensação que eles atuaram a mais de um século.

Jogar em um clube grande é quase uma garantia de independência financeira e status em uma sociedade cada vez mais capenga.

No Brasil, a maioria dos chefes de famílias pena para colocar o pão sobre a mesa, mas os salários dos jogadores é uma afronta.

O peruano Guerrero ganha 900 mil reais no Flamengo. O atleticano Fred, aos 34 anos, recebe 800 mil do Atlético-MG. O colorado Leandro Damião, um dos maiores embustes do futebol brasileiro na história recente, ganha 650 mil reais por mês. A lista  é absurda.

Sem falar que ninguém mais joga por amor a camisa.

Na apresentação o jogador chega, beija o escudo, como se dissesse um eu te amo duvidoso para uma noiva no altar. O gesto se repetirá na próxima parada. E na próxima. E na seguinte.

Posso soar como uma nostalgista que não acompanhou a evolução dos tempos, mas não me importo com isso.

Sou do tempo em que os clássicos de futebol recebiam as duas torcidas e não essa aberração dos jogos com torcida única de agora, consequência da violência e incapacidade do ser-humano de se comportar fora de suas jaulas.

Tempo em que as camisas tinham suas cores sagradas e elas eram respeitadas. Quem imaginaria ver o Corinthians jogando de azul, por exemplo, ou o Palmeiras de amarelo?

Ambos, hoje, possuem camisas nessas cores. E o tradicional rubro-negro Sport Recife tem uma camisa laranja e outra de uma cor metálica, que nem consigo dizer qual é.  Eles não estão sozinhos.

A cada uniforme alternativo, fornecedor, clube e patrocinador escutam o barulho mágico do caixa.
No ‘meu tempo’ os juízes atuavam vestidos de preto. E os goleiros também, a menos que fosse o Raul.

Pretas também eram as chuteiras dos jogadores. Hoje você olha para um gramado de futebol e vê uma salada de frutas trotando sobre a grama.

Amarelas, alaranjadas, vermelhas, verdes e azuis. Só falta tingirem a grama para realçar.

Os tempos são outros, isto está claro, mas resta uma dúvida:

No que teria se tornado Pelé, caso tivesse toda essa estrutura moderna ao seu dispor?

Aposto que nem Cristiano Ronaldo saberia responder.

 

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