Nas entrelinhas

romario bico Nas entrelinhasQue saudade do Romário! Não estou falando pelo futebol, mas pela língua solta. Os jogadores não falam mais o que pensam, estão todos politicamente corretos, uma chatice. Ninguém mais diz besteira.

Isso é culpa das assessorias de imprensa que ensinam a eles o que devem falar, como se comportar, que roupa usar. E ficam todos com um discurso padrão, de bons moços, de que “o importante é o grupo”… A coisa perdeu a graça.

Bom era no tempo em que Nelson Piquet falava pelos cotovelos. Quando Nigel Mansell mandou construir uma estátua da sua mulher para botar no jardim, Piquet não resistiu: “o cara gosta tanto de mulher feia que mandou fazer outra pra ficar com duas”.

Hoje em dia não se vê mais esse tipo de brincadeira. E nem as gafes, como a do Claudiomiro que se declarou feliz por estar em “Belém do Pará, terra em que nasceu Jesus Cristo”. Ou a daquela celebridade relâmpago, que virou apresentadora de TV até o dia em que gritou ao vivo: “I de iscola!!!”.

Com a chegada dos assessores de imprensa, as novas celebridades ficam repetindo textos ensaiados, como se fossem garotas do tele-atendimento. E eu fico sem saber o que é que elas realmente pensam sobre as coisas. Se é que pensam.

Como não dá pra acreditar em nada do que essa gente fala, me acostumei a ler nas entrelinhas. A partir das declarações que fazem, tento descobrir o que está por trás daquilo. Virou um jogo de adivinhação. O fato está sempre encoberto pela versão oficial.

Por isso, nessa Copa do Mundo, fiquei atento aos detalhes. Só quando alguém deixou escapar uma bobagem é que consegui pescar alguma coisa séria. Como foi no dia em que o Ronaldo desabafou e chamou o Presidente de cachaceiro.

Ou como foi no jogo contra a França, quando o juiz marcou uma falta na entrada da área. Juninho e Ronaldinho Gaúcho naturalmente se posicionaram para bater. São os melhores cobradores do mundo. Uma bola dessas podia ter definido a Copa do Mundo. Roberto Carlos chegou gritando pro Juninho: “Cai fora!”.

Fiquei chocado. Isso não é coisa que se diga para um companheiro. “Cai fora!”. O normal seria falar “deixa que eu chuto”. Juninho enfrentou a situação, provavelmente sem a tranqüilidade e a confiança necessárias, e bateu a falta. Mal batida, é claro.

Foi aí que me dei conta que o clima nos bastidores devia estar muito pesado. Até o Ronaldinho Gaúcho, que ri à toa, estava sério. O que será que fizeram pra esse guri que ele ficou tão triste? Como se já não bastasse a escalação na posição errada.

Quem era o responsável pelo ambiente da concentração? Na Copa anterior havia uma “família” – a família Scolari – e vencemos. Talvez esse pequeno detalhe tenha sido importante. Sei que estou me metendo em um assunto complexo e não quero botar mais lenha na fogueira. Só estou revisando o que consegui ler nas entrelinhas. É o meu jeito de “lamber as feridas”, como mandou o “professor” Parreira.

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